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A doença do século

Ilustração: Carlos PS

Uma das faces da Sociedade em Rede é a hiperconexão, tendo como consequência a super disposição de informações quase em tempo real. Mas será que estávamos prontos para lidar com esse bombardeio informacional e tecnológico em todos os momentos do dia?

Estamos cada vez mais conectados por meio de aparelhos eletrônicos, redes sociais e plataformas que facilitam a troca de informações, mas os subprodutos da hiperconexão começam a chegar às salas de terapeutas no Brasil inteiro. A adicção por internet (AI) já é considerada por pesquisadores uma epidemia do século XXI, gerando uma preocupação com a saúde mental em escala mundial.

Segundo um artigo publicado pelo Hospital Santa Mônica, o uso excessivo das redes sociais pode fragilizar ainda mais a saúde mental por meio dos seguintes sintomas:

  • impulsividade;
  • ansiedade excessiva;
  • transtornos de humor;
  • consumo de substâncias;
  • hostilidade e comportamentos agressivos;
  • transtornos de déficit de atenção e hiperatividade;
  • solidão, baixa autoestima e tendência a atitudes suicidas.

A Sociedade em Rede e os impactos da pandemia na saúde mental

Luto, fome, desemprego, preocupação ambiental, isolamento social e descontentamento com o atual governo. Esses são alguns dos fatores que agravaram a saúde mental dos brasileiros no último ano. O novo coronavírus é um problema de saúde global com efeitos que vão além da infecção pelo vírus. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem com o transtorno depressivo, mas menos da metade delas recebe tratamento adequado.

Se para os brasileiros a felicidade está atrelada ao bem-estar social, o que fazer quando somos atravessados diariamente pelo luto, pela indignação e pelo descaso? O que fazer agora que os índices de desigualdade aumentaram e os de prosperidade seguem em queda?

Da Geração Y, movida pelo sucesso profissional, à Geração X, apaixonada pela estabilidade, à Geração Z, hiperconectada e realista, encontramos um sentimento em comum: a angústia. O desemprego latente, a educação descontinuada e a pouca perspectiva de futuro também mexeram com a saúde mental de jovens e adultos por todo o Brasil.

Para falar de saúde mental é preciso fazer recortes sociais

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina, “são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias”. As estatísticas brasileiras foram agravadas na pandemia, principalmente quando consideramos os recortes sociais.

Em 2020, nós nos juntamos ao Vote LGBT para mapear os desafios da comunidade LGBT+ no contexto do isolamento social no enfrentamento à pandemia do coronavírus. Durante o estudo, entendemos que, entre os maiores impactos para a população LGBT+, a saúde mental registrou o maior índice, cerca de 42,72%. Um a cada dois jovens com idade entre 15 e 24 anos indicou a saúde mental como o maior problema do isolamento, e mais da metade dos participantes da nossa pesquisa afirmou precisar de apoio psicológico.

Quando nos aprofundamos nas distintas realidades do Brasil, nós nos deparamos com um cenário de vulnerabilidade ainda maior. De acordo com o professor e psicólogo Emiliano de Carvalho David, em um artigo produzido pelo Grupo de Trabalho Racismo e Saúde, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, há mais suicídios entre adolescentes negros e mais mortes por consumo abusivo de álcool entre pessoas negras do que entre pessoas brancas.

Muitos são os fatores que agravam a vulnerabilidade e manifestam-se mais agressivamente nesse universo como consequência do convívio frequente com diversas formas de preconceito.

O que o futuro nos reserva?

Como diria Edward Tufte: “Só duas indústrias chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software”.

Embora o diagnóstico seja negativo e o futuro incerto, as pessoas estão buscando maturidade na relação com a tecnologia. A infoxicação é um problema contemporâneo que tem afligido jovens em escalas sem precedentes. O termo foi inventado há 20 anos pelo físico espanhol Alfons Cornella e se refere a uma doença silenciosa ligada ao excesso de informação.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), funciona o Instituto Delete. Inaugurado em 2013, é o primeiro núcleo do país especializado em pesquisa, prevenção e tratamento da dependência digital e já atendeu mais de 4 mil pessoas (a maior parte delas com idade entre 13 e 35 anos).

“Não somos contra a tecnologia. Apenas defendemos seu uso consciente”, explica a psicóloga Anna Lucia Spear King, diretora do Delete e autora do livro Nomofobia – Dependência do Computador, Internet, Redes Sociais? Dependência do Telefone Celular?

Kevin Roose, o americano que chegou a guardar o próprio celular dentro de um cofre para resistir à tentação, publicou o artigo Do Not Disturb: How I Ditched My Phone and Unbroke My Brain para relatar sua experiência com o detox digital.

Para algumas pessoas, principalmente aquelas que trabalham com redes sociais, desligar as notificações ou passar mais tempo sem mexer no celular é uma tarefa praticamente impossível. Cientes dos riscos que correm, mas ligados a um contrato de trabalho, esses indivíduos sabem que não é possível ter saúde passando tantas horas conectados.

Tal como treinamentos de segurança do trabalho e saúde, empresas contratantes de serviços de comunicação, principalmente para redes sociais, devem pensar em soluções de prevenção para seus funcionários.

Recentemente, o Banco do Brasil realizou um treinamento interno para ensinar aos funcionários como usar as ferramentas de comunicação e evitar a sobrecarga de informações. “O mundo do instantâneo produz um overload de informações que, sem ajuda, a gente é incapaz de organizar. Fica achando que está sempre perdendo algo importante, gera ansiedade, daí para o burnout é só um pulo”, afirma Márcia Campos, funcionária do banco para o Baguete.

Diagnóstico e prevenção: é possível?

Desconectar é necessário, mas como fazer isso quando nosso cotidiano é facilitado por diversas ferramentas tecnológicas? Os especialistas do Instituto Delete indicam pelo menos 10 passos para uma desintoxicação digital completa, sendo alguns deles:

– Tenha atenção reforçada para que o uso das tecnologias não se torne abusivo no cotidiano;

– Fique de olho nas consequências físicas (privação de sono, dores na coluna, problemas de visão) e psicológicas (depressão, angústia, ansiedade);

– Verifique se seu desempenho acadêmico, no trabalho, na família ou pessoal, está sendo prejudicado pelo uso abusivo das tecnologias;

– Reflita sobre seus hábitos cotidianos;

– Não recuse atividades, compromissos ou encontros ao ar livre para ficar conectado às tecnologias.

– Pratique exercícios físicos regularmente e crie intervalos regulares durante o uso das tecnologias para fazer alongamentos.

– Não abale seu humor com publicações virtuais. Não acredite em tudo o que é postado e tome cuidado com o que você publica na internet;

– Valorize suas relações pessoais, sociais e familiares. Não troque essas relações no dia a dia para ficar utilizando as tecnologias;

– Jogue o lixo eletrônico no local correto. Pense no meio ambiente, recicle os aparelhos fora de uso e evite a troca frequente de aparelhos sem necessidade.

Antes de trancar seu celular em um cofre ou entrar em desespero, comece a prestar atenção na sua relação com essas ferramentas.

Algumas pessoas simplesmente não conseguem ficar sem o celular ou registram pico de estresse por não poderem usar as redes sociais. Se você sente uma dependência excessiva, para além do trabalho, dos estudos ou da comunicação com amigos e familiares, procure ajuda em iniciativas da sua cidade.

O Instituto Delete possui diversos testes online, assim como o Viver Bem da Unimed ou o Programa Estruturado de Psicoterapia de Grupo sobre Dependência de Internet e Novas Tecnologias de São Paulo. Com o resultado do teste, você pode procurar a ajuda de grupos especializados e centros de tratamento.

A Gabriela Barbosa, ou Gabi do Conteúdo, estrategista da Box e produtora de conteúdo, diz que “a internet serve para absolutamente tudo. Mas, nós é que decidimos o papel dela na nossa vida”. Para um futuro em que a tecnologia e a saúde mental sejam cada vez mais aliadas na promoção do bem-estar, é necessário refletir sobre a potência do que carregamos em nossos bolsos.