A influência invisível
Por: Rebeca Dantas

A capacidade de influenciar pessoas sempre existiu. O que muda é a nossa percepção daquilo que significa influência e de quais são as estratégias – como marcas e […]

A capacidade de influenciar pessoas sempre existiu. O que muda é a nossa percepção daquilo que significa influência e de quais são as estratégias – como marcas e pessoas – que precisamos traçar para alcançarmos tal poder.

A influência nada mais é do que a transformação do pensamento e da ação que, para além de inspirar, pode gerar uma mudança concreta. A partir desse conceito, é possível compreendermos que nem toda informação, conteúdo ou conhecimento necessariamente influenciam.

Se um dia enxergamos as plataformas massivas de comunicação e as pessoas com alto número de audiência como canais de influência, a internet e a sociedade em rede mudaram este cenário. Afinal, passar uma mensagem para um grande público significa possuir poder de evidência, de disseminação de uma mensagem, mas não necessariamente de uma mudança de comportamento. 

Há tempos a cultura de influência vem sendo desgastada. Com a pandemia da COVID-19, um movimento de ressignificação dessa cultura ganhou ainda mais força diante daqueles que utilizavam e consumiam suas plataformas digitais com conteúdo supérfluo ou desconexo ao zeitgeist.

 

A influência visível: aos olhos de quem?

Muito se fala sobre o fim da era dos influenciadores. Vale assistir à conversa da YOUPIX com Giovanna Heliodoro e Pedro Tourinho sobre como precisamos ressignificar a influência e entender que, em 2021, ela vem de forma diferente: mais verdadeira e diversa, andando lado a lado com a realidade do mundo em que vivemos.

Precisamos discutir que esse impulso do cancelamento está conectado à visão de que os influenciadores não representam somente uma pessoa, personagem ou canal com poder de influência. Socialmente, o conceito de “influenciador” é entendido como alguém que utiliza suas plataformas de comunicação para produzir conteúdo para uma (ou mais) marca a fim de impactar seu nicho de seguidores, gerar vendas, divulgar mensagens, e que segue um determinado modus operandi em suas redes para fazer o seu branding pessoal, tal como o de suas marcas e empresas parceiras. 

O grande divisor de águas que vimos neste último ano foi acompanhar esses criadores de conteúdo que não reformularam seu posicionamento e discurso diante de um mundo extremamente sensível, crítico e exigente, que enfrenta uma pandemia, com intensas mobilizações como o Black Lives Matter, e que também adentra o atual modelo econômico, onde a criação de valor passa a ser medida pelo impacto positivo do negócio junto às pessoas e ao planeta (clique aqui para ver o nosso artigo sobre a Economia Regenerativa). Foi assim que, não tão de repente, apresentar o look do dia, repassar cupons de desconto, apoiar vendas massivas, esbanjar um lifestyle utópico e não tomar partido em movimentos políticos e socioculturais não só deixou de fazer sentido, como também levou “unfollow”.

E quantas vezes nós já não chamamos de influenciadores aquelas pessoas que se encaixam nesse perfil, mas que não necessariamente possuem poder de influência? Para discutirmos sobre o futuro da influência e qual será o fim dos influenciadores precisamos antes entender que chamar alguém de influenciador significa conceder-lhe um poder muito valioso. Por isso, é extremamente importante questionarmos qual é o entendimento social a respeito deste conceito – principalmente no nosso atual mundo pulverizado, no qual a influência passa por uma transformação cada vez mais difícil de ser alcançada e percebida. Nesse contexto, quem realmente pode ser considerado influente?

 

A influência invisível

É mais difícil encontrarmos as grandes concentrações de audiências na organicidade da rede que vivemos hoje, até porque muita coisa acontece a olho nu. Se antes a influência estava focada em canais de mídia, hoje ela é diluída em ecossistemas. As ondas de referência partem com mais força de lugares descentralizados, e não de personalidades que atingem grandes massas.

Isso significa que, para ser influente, é preciso deixar de ser outsider, de pertencer somente ao espaço digital, e tornar-se insider, isto é, pertencer também ao espaço do ecossistema. Quem não está presente nos grupos privados e fechados não nota os movimentos de uma comunidade e, portanto, não gera impacto com precisão. A granularidade desses espaços representa grande dificuldade para que sejam percebidos, observados e penetrados. São mais complexos para serem vistos e mais potentes do que se imagina. Entretanto, na influência, as baixas audiências tornam-se relevantes, e o visível perde espaço para o invisível. Não estamos falando aqui de uma estratégia de influência para somente promover uma nova coleção de produtos de varejo, por exemplo, mas de algo que tem um potencial muito maior.

Foi assim que os usuários do Reddit – uma rede social de fóruns – quebraram a bolsa de valores de Wall Street. Apesar de não ser tão popular como o Facebook e o Instagram, tem grande valor. No Wall Street Bets, um grupo que existe para troca de informações e opiniões sobre o mercado de investimento, um usuário comentou que os valores da GameStop, uma das varejistas mais tradicionais do universo gamer, estavam muito baixos. É importante ressaltar que não se ganha dinheiro em Wall Street apenas quando uma empresa ganha valor, mas também quando ela o perde. E este é um movimento muito mais comum do que se imagina. Afinal, grandes tubarões e gigantes do mercado lucram tranquilamente em cima de empresas que passam por extremas dificuldades, como a GameStop.

Ao perceberem que era este o caso, os usuários do Reddit resolveram fazer justiça com as próprias mãos: começaram a comprar ações da GameStop para inflar o seu preço e se mobilizar em desfavorecimento ao lucro desses gigantes. Quando tudo isso começou, a ação da empresa custava em torno de US $6; contudo, rapidamente ultrapassou a soma de US $300. No período de dezembro de 2020 a janeiro de 2021, o valor de mercado da GameStop saltou de US $1,3 bilhões para mais de US $22 bilhões. Além disso, com a valorização das ações da empresa, os principais fundos de investimento de Wall Street, como o Melvin Capital, que apostaram grande parte dos papéis de suas companhias na queda da ação, tornaram-se alvos fáceis de uma grande ruína. O prejuízo para esses fundos foi tão grande que seus representantes chegaram a se pronunciar na televisão estado-unidense, implorando pelo congelamento das ações da GameStop para que pudessem ao menos ter uma chance de estabilização. 

Toda essa história parece piada para muitos, e até mesmo uma analogia moderna à antiga fábula “A lebre e a tartaruga”, em que vemos uma lenta tartaruga apostar e vencer uma corrida com uma lebre. Entretanto, o que os usuários da Wall Street Bets fizeram é um ótimo exemplo para entendermos a importância de olharmos para os códigos e movimentos de um ecossistema. Estamos falando de pessoas comuns, sentadas na frente de um computador em um momento de pandemia e derrubando os maiores fundos de investimento de Wall Street, mas sem praticar nenhuma ilegalidade. Estamos nos referindo a uma mobilização que tomou uma proporção gigantesca por ter se conectado aos valores e desejos de um grupo anteriormente invisível. Ninguém viu como aconteceu porque ninguém precisou ver para acontecer. E este é o impacto da influência; isto é o que chamamos de ser influente hoje em dia.

 

 


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