Cancelamento: cultura ou ferramenta?
Por: box1824

Como uma ferramenta útil e subversiva da Geração Z foi cooptada pelos Millennials e se tornou calabouço de quem erra. Ainda dá tempo de voltar à ideia original? […]

Como uma ferramenta útil e subversiva da Geração Z foi cooptada pelos Millennials e se tornou calabouço de quem erra. Ainda dá tempo de voltar à ideia original?

Se você algum dia pensou em cancelar a cultura do cancelamento, ou seja, ferir com a própria faca o termo que hoje em dia domina artigos, podcasts e discussões por todo o espectro global, nós gostaríamos de fazer um convite: que tal olhar para o cancelamento como uma ferramenta útil e subversiva? E que tem a cara de quem a criou: a geração Z.

Estamos falando de jovens pragmáticos, mobilizados e que entendem como ninguém o funcionamento das estruturas para agir sobre elas. Sim, eles gostam de uma dose de teatralidade mas, afinal, estamos todos aqui, de fato, representando algum papel na sociedade.

O cancelamento chega com grande alarde, e tem a intenção de gerar medo nas figuras públicas, geralmente empresas e influenciadores de grande alcance. Mas sua lógica é simples: atacar diretamente o que essas figuras mais valorizam. Não somente colocam em risco a sua imagem, como também a “sequestram”, exigindo um resgate objetivo e direto, mas muito difícil de atender: a transformação.

A falta dessa compreensão é o que gera o desencontro que faz o cancelamento virar um grande bicho de sete cabeças. Pouquíssimas figuras que são canceladas entendem a exigência da ferramenta. A partir do momento que vêem a sua imagem em risco, tomam iniciativas rasas como notas de esclarecimento, compromissos vazios e propagandas simpáticas. Tentam comprar de volta a sua influência, mas sem nenhum compromisso real. Não entendem que a recuperação da imagem existe sacrifício e tempo. Já aconteceu de alguma pessoa pedir perdão por algo que lhe feriu, mas não mudar o seu comportamento diante do ocorrido? Isso acontece no dia a dia, impactando nossa credibilidade nas relações sociais, e o mesmo ocorre quando comparado ao cancelamento.

Não adianta querer resolver rápido o problema. É essa mentalidade que precisa mudar para que o perdão seja conquistado, principalmente quando falamos do perdão da geração Z, que possui um poder de mobilização muito forte, já que são aspiracionais e inspiracionais para a sociedade como um todo.

E sim, existe perdão. O cancelamento, como ferramenta, é temporário, desde que as exigências sejam atendidas. Mas, como ninguém entende isso, o cancelamento fica lá, decretado, eternamente. Como uma culpa corrosiva. E é esse peso que causa medo e faz quem não entende a ferramenta querer usar o cancelamento contra ele próprio.

A isso se soma outro fator: o interesse da Geração Y pelo assunto. Uma geração que se define muitas vezes pela oposição e não pelo diálogo, que usa a crítica como ferramenta de conexão, e que já começa a perder o interesse e a flexibilidade discursiva da juventude. Não querem exigir nada, só querem ver quem errou ser excluído do diálogo. Para os Millennials, o cancelamento é uma vingança, uma oposição. E é assim que a ferramenta vira cultura.

Seria muito útil resgatar a utilidade do cancelamento hoje, principalmente no contexto atual que vivemos de tantas transformações consequentes dos impactos da pandemia, em que o olhar da sociedade se torna mais crítico perante o mercado como um todo e demanda por respostas urgentes. Vale conferir nosso artigo sobre sociedade regenerativa para saber mais sobre os pilares que ditam o novo mundo. Imagine a potência de uma ferramenta subversiva, que usa o poder da micro-influência para gerar um senso de urgência da mudança em grandes empresas e figuras públicas. E o melhor: compreender que tudo o que essa mobilização exige é compromisso e transformação.

Se você foi cancelado, a primeira coisa a se fazer é entender o que motivou a crítica. Quem você ofendeu? Quem você deixou de atender? Qual foi a sua desconexão? O cancelamento normalmente é iniciado por um grupo específico, e depois propagado por outros grupos que se identificam com essa luta. Ou seja, é muito importante chegar à raiz do problema.

Entendendo isso, o próximo passo é juntar pessoas que representam esse grupo e entender o que precisa ser feito para reverter a situação. Quais são as medidas tangíveis que vão causar transformação? Quais os investimentos (financeiros ou não) que devem ser feitos? Quais políticas precisam ser revistas?

Só depois de colocadas em prática essas medidas, vem o momento de comunicar. E não se trata de investir em uma campanha linda, ou com um vídeo produzido e alegre que minimize o problema e dá a entender que nada de mal tenha acontecido. Não adianta varrer a sujeira para debaixo do tapete. A comunicação precisa ser direcionada ao grupo atingido, e com tom de prestação de contas, listando todas as medidas que estão sendo tomadas para fazer nascer uma nova mentalidade.

Ao ver essa movimentação, a Geração Z, que é pragmática e preza pelo diálogo, está disposta a reverter esse cancelamento e, inclusive, se tornar uma defensora da sua imagem. É uma geração que gosta de histórias de transformação e aprendizado e, por isso, valoriza quem souber se reinventar. Sim, o cancelamento pode ter um final feliz! Ninguém está dizendo que é um processo fácil, mas é possível pela perspectiva de uma geração que, com a mesma força que critica o que julga errado, acolhe a transformação necessária para a sociedade.

O cancelamento não precisa se tornar uma cultura se for enxergado como ferramenta, e se os seus alvos souberem compreender a necessidade de mudança que se aponta. Mas, enquanto a única reação dos cancelados for criticar seus acusadores, continuaremos perdendo tempo com discursos vazios, ao invés de ver a real transformação nas relações sociais.

E, da mesma maneira, cabe aos acusadores a clareza da crítica e a capacidade de reconhecer a transformação. Afinal, sabemos que o tribunal da internet a cada dia perdoa menos e julga mais. Se nos esquecermos de que somos todos atores em um teatro, nos perdemos no personagem, e é aí que o cancelamento perde seu poder transformador.

Muito se fala sobre a cultura do cancelamento e, enquanto ele não for compreendido como ferramenta, essas discussões estão bem longe de acabar. A grande questão é: cancelar é fácil, o difícil é querer e fazer a transformação. E isso vale tanto para quem é acusado, como também para quem acusa.


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