Carabinas do Clima - BOX1824
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Carabinas do Clima

A história da sociedade é uma história de injustiça. Tudo começou há pelo menos 13.000 anos, após o fim da Era Glacial, com territórios se desenvolvendo de formas diferentes ao redor do mundo. Enquanto algumas pessoas usavam utensílios de pedra, outras já haviam desenvolvido artefatos de madeira. 

Em nome do desenvolvimento e da expansão territorial, surgiram os primeiros colonizadores atrás de crescimento econômico de países europeus e asiáticos. Essa empreitada geralmente tinha dois objetivos: habitação ou exploração de recursos.

Jared Diamond é um geógrafo e historiador que se dedicou a estudar o desenvolvimento da civilização e o que tornou a experiência humana tão diversa nos últimos 13.000 anos.

Em seu livro “Armas, Germes e Aço: Os Destinos das Sociedades Humanas”, Jared comparou os desdobramentos históricos e traçou linhas para compreendermos o nosso destino. Ele ainda conclui que a dominação ocorre em fundamentos militares (armas), tecnológicos (aço) ou nas doenças (germes).

Chegamos ao primeiro ponto de questionamento: a ideia de civilização continua sendo boa? Em defesa desse conjunto de predicados, comunidades ao redor do mundo foram forçadas a passar por guerras devastadoras e doenças implacáveis. Enquanto nossos avós choravam com os horrores da guerra, governos, empresas de tecnologia e poderio bélico desenvolviam formas sofisticadas de submeter os mais vulneráveis a quem pudesse pagar melhor.

Com o avanço da emergência climática, essas mesmas organizações têm desenvolvido ferramentas para lidar com crises sanitárias, falta de abastecimento de água, secas e tempestades. Algumas tecnologias estão chamando a atenção por se parecerem mais com armas de destruição em massa do que com soluções climáticas.

A corrida do clima

Em 2020, o Conselho de Estado da China declarou que até 2025 o país terá um sistema de modificação do clima graças aos avanços das pesquisas e tecnologias. Nos próximos cinco anos, a área total coberta por chuva artificial ou neve chegará a 5,5 milhões de km², enquanto mais de 580 mil km² serão cobertos por tecnologias de supressão de granizo (Fonte: CNN Brasil). Nas Olimpíadas de 2008, os chineses colocaram em teste sistemas para produzir nuvens, reduzindo a poluição e evitando chuvas durante os eventos.

Mas a China não é o único país investindo em tecnologia para mudanças climáticas. Nos Estados Unidos, o HAARP (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência) até virou protagonista em teorias da conspiração. O projeto procura ampliar o conhecimento sobre as propriedades físicas e elétricas da ionosfera terrestre, através de antenas de alta frequência que enviam ondas para a ionosfera para aquecê-la. É desse jeito que são estudados os efeitos das mais diversas interações de temperaturas e condições de pressão.

A ideia até parece boa, mas especialistas alertam sobre os perigos desses aquecedores ionosféricos. Eles podem elevar a temperatura em algumas partes do planeta e até causar terremotos.

“Sem regulamentação, os esforços de uma nação podem afetar outros países”, afirmou Dhanasree Jayaram, especialista em clima da Manipal Academy of Higher Education em Karnataka, Índia.

Um novo delito contra o planeta

Os mais vulneráveis são os que mais sofrem com os efeitos da emergência climática, mas também são os mais ignorados em processos decisórios nas ações de combate aos desastres causados pelo clima.

Pesca industrial, emissão de gás carbônico sem precedentes, exploração de terras protegidas, garimpo ilegal — todas essas categorias de violência estão matando o nosso próprio lar. E para punir essas ações, juristas, ambientalistas e civis se uniram.

Uma comissão internacional de 12 juristas criou uma definição jurídica para combater crimes contra a humanidade, sobretudo sobre o planeta. “Para os efeitos do presente Estatuto, entender-se-á por ecocídio qualquer ato ilícito ou arbitrário perpetrado com consciência de que existem grandes probabilidades de que cause danos graves que sejam extensos ou duradouros ao meio ambiente”. Segundo o jornal El País, a ideia é que essa tipificação penal seja incorporada, como um quinto crime, ao Estatuto de Roma, que orienta o funcionamento do Tribunal Penal Internacional (TPI).

A devastação da biodiversidade afeta diretamente os humanos. Um exemplo disso, próximo a nossa realidade, está na malária. Uma floresta saudável mantém o equilíbrio, nos protegendo de ameaças biológicas e doenças zoonóticas.

“Já é algo bem estabelecido que o desmatamento pode ser um grande fator de transmissão de doenças infecciosas. ”

Andy MacDonald

 

“Trata-se de um jogo numérico: quanto mais degradarmos e retirarmos os habitats florestais, mais expostos estaremos a situações de epidemias infecciosas.” Diz Andy MacDonald, ecologista especializado em doenças do Instituto de Geociências da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara para a National Geographic.

Há indícios de que a malária esteja intimamente ligada à destruição da floresta. Em 1990, o epidemiologista do Instituto de Patógenos Emergentes da Universidade da Flórida, Amy Vittor, sugeriu que o motivo fosse a retirada de partes da mata que formavam o habitat ideal da proliferação do Anopheles darlingi — o mais importante transmissor de malária na Amazônia.

Foto de Gene Gallin l Unsplash

A quantidade de larvas crescia em poças de água quente e nas bordas da floresta. Entre 2003 e 2015, os pesquisadores estimaram que, em média, um aumento na perda florestal de 10% ao ano tenha causado um aumento de 3% nos casos de malária.

Em defesa da vida e da Terra

Há muitos anos, o ser humano acredita ser capaz de domar a natureza, de submetê-la aos seus serviços e à exploração sem fim. Enquanto isso, a mídia e as grandes organizações apontam esta década como uma das mais significativas em avanços tecnológicos e de desenvolvimento humano, mas parecemos regredir.

A mudança que o planeta precisa para sobrevivermos aos efeitos da emergência climática não está na tecnologia de ponta capaz de fazer chover ou aquecer ainda mais o solo. A mudança que o planeta precisa está no paradigma sobre o qual essa lógica extrativista opera.

A lógica de desempenho do mercado precisa se alinhar com as mudanças do mundo. 

Daniel Christian Wahl, autor do livro Design de Culturas Regenerativas, acredita que: “em resposta aos aspectos disfuncionais dos negócios de sempre, muitas vezes balançamos o pêndulo e mudamos de um extremo para outro, em vez de manter o que é bom e útil do antigo e misturá-lo de maneira criativa com o novo”.

Para Daniel, nós não precisamos apenas de negócios sustentáveis, precisamos de culturas regenerativas — saudáveis, resilientes e adaptáveis — que cuidam do planeta e da vida, conscientes de que esta é a forma mais eficaz de criar um futuro próspero para toda a humanidade.

Para agir em defesa da vida e da Terra hoje, as empresas podem se alinhar com órgãos públicos de regulamentação e controle dessas novas tecnologias. Elas também podem investir em desenvolvimento de autorias específicas e não permanecerem neutras nas discussões sociopolíticas que regulamentam suas atuações.

Para um futuro regenerativo, é necessário que todo o comércio, a indústria e sociedade civil aprenda com modelos da natureza. No ambiente corporativo, isso significa se responsabilizar em fechar o ciclo de vida de bens e serviços, recuperando o meio ambiente e gerando créditos para o amanhã.

A Patagônia é um exemplo de negócio com compromissos públicos e estratégias voltadas para o futuro que queremos construir. Chouinard, fundador da marca, também é ativista ambiental. Em 2002, ele fundou o 1% for the Planet, uma rede de empresas e pessoas que contribuem para organizações ambientais sem fins lucrativos em mais de 90 países.

Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório. Mas para incentivar que seus funcionários fossem para as urnas, Chouinard decretou que suas lojas e fábricas fossem fechadas. No site da empresa, também havia recomendação de voto para dois candidatos em cargos nacionais que defendiam causas ecológicas, Jacky Rosen (Nevada) e Jon Tester (Montana).

Para impulsionar as manifestações contra o ex-presidente Donald Trump, a Patagônia levou ao ar um site com informações sobre ações inconstitucionais. O banner do site dizia: “O presidente está roubando suas terras”.

Print de tela do site oficial da Patagônia
The President Stole Your Land l Imagem de divulgação

Além do forte envolvimento político institucional, a Patagônia também investe no aumento de circularidade de seus produtos através do conserto gratuito de peças. Mas ela não é a única nessa empreitada! A Ikea, empresa que projeta e comercializa móveis prontos para montar, eletrodomésticos e acessórios para casa, realiza esforços contínuos para se tornar mais justa e sustentável.

“Estamos empenhados em assumir o comando e trabalhar em conjunto com os fornecedores de matérias-primas, bem como com os nossos clientes e parceiros.”

–Torbjörn Lööf, CEO do Inter IKEA Group

 

Além da venda de móveis usados, a Ikea fez compromissos públicos como:

  • Criar todos os produtos IKEA com novos princípios circulares, visando usar apenas materiais renováveis e reciclados até 2030;
  • Oferecer serviços que facilitem o transporte, a manutenção e a circulação de produtos pelas pessoas;
  • Retirar todos os produtos de plástico de utilização única da gama de produtos IKEA a nível global e dos restaurantes de clientes e colaboradores até 2020;
  • Assegurar serviços de transporte de mercadorias para os clientes com zero emissões até 2025;
  • Reduzir a totalidade da pegada ecológica da IKEA até uma média de 70% por produto, até 2030;
  • Expandir a oferta de soluções de Home Solar acessíveis para 30 mercados IKEA até 2025.

Os consumidores esperam que as empresas sejam mais responsáveis e transparentes quanto às suas ações e aos seus impactos climáticos. Em vez de criar soluções paliativas, a criatividade e a tecnologia podem se alinhar positivamente para recuperar a nossa casa: o planeta Terra.