Design salutogênico: O lugar como remédio - BOX1824
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Design salutogênico: O lugar como remédio

por Ana Carolina Araújo

Você já percebeu que alguns espaços que você frequenta salvam o seu dia, e outros lhe fazem muito mal? Imaginamos que sim. Em alguns casos, a solução é apenas deixar de ir a um certo restaurante, ou shopping. Mas, e quando estamos falando do seu trabalho, de um hospital, do prédio onde sua terapeuta atende?

Se pensarmos em saúde como um estado amplo de bem-estar físico e psíquico, poderemos falar de espaços que curam e que adoecem. O dilema que descrevemos tem a ver com isso.

 

É sobre saúde, e não sobre doença

Nos anos 70, o sociólogo da medicina Aaron Antonovsky teve um insight depois de ler “Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração”. O autor é Viktor Frankl, fundador da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia. A obra relata sua busca por sentido num campo de concentração nazista. Nela, ele reflete sobre como foi possível sobreviver a tamanho horror. Ao longo da jornada, percebe que só resistiram aqueles que viam na vida um significado além dos eventos do presente.

Esse foi o ponto de partida de Antonovsky para chegar ao conceito da salutogênese. Enquanto a medicina construía saberes a partir da origem das doenças (patogênese), ele decidiu falar sobre como se origina a saúde.

A vida é entrópica, diriam os cultos. A vida é uma confusão, dizemos na mesa do bar. Independentemente das palavras, o fato é que passamos por ela lutando contra as forças que tentam nos afogar, e tentando descobrir como manter a cabeça fora da água. Inclusive, a imagem de um garoto boiando num rio é muito usada nas aulas de salutogênese.

Ao conjunto de habilidades que nos torna capazes de caminhar na direção da saúde, e não na da doença, Antonovsky deu o nome de Senso de Coerência. Para alcançá-lo, lançamos mão de três Recursos Gerais de Resistência (RGR):

  1. Significância: pode vir das nossas conexões com as pessoas e o mundo à nossa volta, ou de conceitos mais abstratos, como noções de deus, de saúde planetária ou de ancestralidade. É sobre o quanto significamos para alguém e o que nos importa.
  2. Compreensibilidade: entender o que fazemos e por que fazemos aumenta nossa realização. (Lembra o Golden Circle de Simon Sinek.)
  3. Capacidade de gerenciamento: a autonomia de cuidarmos de nós mesmos e das nossas tarefas.

Centenas de pesquisas científicas indicam que pessoas com forte Senso de Coerência têm uma saúde melhor, enquanto aquelas que não veem sentido no modo como vivem, não entendem as próprias motivações e não conseguem cuidar de si têm saúde física e mental piores.

 

Lugares que adoecem e lugares que curam

Já sabemos que o corpo humano reage e se modifica a partir do ambiente. Nos últimos anos, começamos a pensar mais sobre que sinais cada espaço nos envia. Como o cérebro os interpreta e responde a eles? Como cada espaço projetado impacta a vida e a saúde humanas?

Restaurante Qualico Family Center, no Parque Assiniboine (Manitoba, Canadá)
Restaurante Qualico Family Center, no Parque Assiniboine (Manitoba, Canadá)

A saúde, como o som, não se propaga no vácuo, mas nos nossos lugares. Em 1997, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou os espaços de trabalho, as escolas, os hospitais, as instituições correcionais, as repartições públicas e as residências como “centro da promoção da saúde no século XXI”. Em 2011, a organização discutiu pela primeira vez as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), que podem vir do ambiente ou do estilo de vida, como câncer e doenças cardiovasculares. Elas respondem por 71% das mortes no mundo.

“A saúde é criada e vivida pelas pessoas com as configurações da sua vida cotidiana, onde aprendem, trabalham, se divertem e amam. A saúde é criada cuidando uns dos outros, podendo tomar decisões e ter controle das próprias circunstâncias de vida, e assegurando que a sociedade em que vivemos crie condições que possibilitem a realização da saúde de todos”.

Organização das Nações Unidas, 1986

Se está provada nossa reação ao ambiente, e se estamos adoecendo e morrendo por causa dessa relação, a conversa sobre como projetaremos nossos espaços de convivência não pode demorar muito mais. Precisamos de uma arquitetura que nos conduza ao bem-estar físico e psíquico, ajude a combater o estresse e desempenhar melhor nossas funções no mundo. É onde a salutogênese e o design se encontram.

 

O papel do design

As construções de design salutogênico consideram conforto, nutrição, condicionamento físico e saúde mental em todo o ambiente. Não falamos apenas sobre criar espaços focados nessas características, mas sobre estas atravessarem todo o projeto.

Por exemplo: é ótimo que uma empresa tenha uma academia ou uma sala para a prática de yoga. Ela pode ser sustentável e ter baixa pegada de carbono e programas de eficiência energética. Mas essa mesma empresa pode ter escadas apertadas, escuras, mal ventiladas e escondidas (conheço vários casos). Um projeto salutogênico, porém, apostaria em escadas centrais, amplas e iluminadas, estimulando o exercício e a interação humana no cotidiano.

Saguão St. Mary's Hospital, Fotografia de Andrew Latreille
Saguão St. Mary’s Hospital, Fotografia de Andrew Latreille

A pergunta-chave de um projeto assim é: o espaço promove a saúde ou permite que as pessoas se desenvolvam social, mental e fisicamente?

Numa entrevista ao International WELL Building Institute (IWBI), o arquiteto canadense Tye Farrow, especialista na área, definiu os cinco elementos-chave de uma construção desse tipo.

  1. Natureza: uso de materiais vivos e de luz natural (que estimula o cérebro à medida que se altera);
  2. Autenticidade: design baseado em coisas que conhecemos e estimulam nossas memórias;
  3. Variedade: construções não deveriam ser todas iguais, mas expressar as aspirações das organizações;
  4. Vitalidade: os designs devem ativar espaços e se transformar com o tempo;
  5. Legado: toda criação deve ser uma contribuição duradoura para a comunidade.

Os aspectos citados por Farrow ajudam a mensurar o quanto um espaço ajuda seus ocupantes a terem uma vida mais saudável e potencialmente mais longa. O investimento não é no objeto ou no produto, mas nas pessoas.

Parece vago dizer que a arquitetura de um escritório faz alguém mais saudável? Um caso prático: O ciclo circadiano regula nosso organismo para o dia e a noite, definindo os momentos em que precisamos de mais ou menos energia, e afeta profundamente nossa condição de saúde. Precisamos da luz da manhã — do espectro azul, que nos desperta — e da noite — do espectro vermelho, que nos prepara para o sono e o descanso. Um ambiente sem janelas, onde as pessoas dependem da luz artificial o tempo todo, terá um papel significativo na propensão ao adoecimento físico e mental.

 

Mercado em expansão

Há 20 anos, os benefícios do design salutogênico eram pouco conhecidos. Esse cenário mudou bastante na última década, especialmente quando se trata de ambientes profissionais. Guloseimas à vontade, videogame no lobby e bicicletário na porta já não convencem como ferramentas de bem-estar no trabalho.

Os motivos para a mudança podem não ser os melhores, mas os primeiros passos foram dados. O mercado de alta performance entendeu que espaços com design salutogênico melhoram os relatórios ESG, criam uma cultura de pertencimento, demonstram comprometimento com a saúde e a segurança após a pandemia, além de aumentarem a produtividade e o engajamento das equipes.

Já existe até um conjunto de certificações para empresas que desejam levar a sério o design salutogênico em suas plantas. Segundo o International WELL Building Institute (IWBI), que concede o reconhecimento, a demanda pelos serviços cresce em ritmo acelerado, tendo aumentado mais de 300% nos últimos cinco anos.

Numa pesquisa de 2002, Rusty Gage conseguiu provar a conexão entre ambientes enriquecidos e o surgimento de novos neurônios em adultos. Mas, se já temos tantas demonstrações da necessidade de um design que visa à saúde, por que isso ainda é raro? 

Alan Dilani, pesquisador da interação entre design e saúde e expoente da teoria do design salutogênico, explica que a arquitetura sofre influência das sociedades industriais há décadas. Assim, muitos prédios públicos, como aeroportos e hospitais, são projetados como fábricas. Numa revisão de mais de 300 artigos, ele comprovou que características ambientais servem de apoio psicossocial, pois estimulam as pessoas mental e socialmente, ajudando a desenvolver o senso de coerência.

 

Dilani, que comanda a International Academy for Design and Health, conseguiu desenvolver um quadro conceitual em que traduz a Teoria Salutogênica para os fatores ambientais do design. O esquema mostra quais características arquitetônicas de um projeto estimulam cada um dos Recursos Gerais de Resistência (RGR). 

Saúde como vetor de regeneração

Quando começamos a ler sobre design salutogênico, ele pode parecer um conceito utópico, que só funcionaria em países ricos ou em megacorporações globais. Ao me deparar com dados da OMS e do Banco Mundial sobre os países mais saudáveis do mundo, essa crença caiu por terra. Daria para criar um dito popular no estilo “diga-me onde vive, e eu lhe direi se é saudável”.

A Espanha, apesar de seus diversos problemas econômicos, é o país mais saudável do mundo, seguida pela Itália. Nessa lista, os Estados Unidos estão em 35.º lugar, atrás até da Estônia (32.º). A China, país mais rico do mundo, está em 52.º lugar. O Brasil, em 76.º: sua posição no ranking se relaciona ao estilo de vida da população, que, entre outros fatores, é modelado pelos espaços de convivência. 

A mensuração ecológica ambiental responde por ⅓ dos indicadores avaliados. Ela considera as características físicas dos espaços de habitação e trabalho, a exposição à poluição e até a exposição diária à luz solar (como dissemos antes).

O Nike Go FlyEase se encaixa nos pés com um único movimento, o que o tornou acessível a pessoas que não conseguem usar as mãos.
O Nike Go FlyEase se encaixa nos pés com um único movimento, o que o tornou acessível a pessoas que não conseguem usar as mãos.

A abordagem salutogênica está por trás de cada foto neste artigo, como a do St. Mary’s Hospital, hospital sem fins lucrativos em Madison, Wisconsin, Estados Unidos. Localizado no centro da cidade, ele se integra à vizinhança e tem instalações que parecem com uma casa, com vista para o jardim, lareira e poltronas macias. Os quartos de pacientes internados têm varanda, e a área externa é um parque de esculturas compartilhado por pacientes, funcionários e com a comunidade local. 

Assim acontece na área de branding e reputação de marcas: os critérios tradicionais de sustentabilidade parecem não dar mais conta do campo do design e da arquitetura. Abarcados pelos debates regenerativos, esses dois campos já não podem ser silenciados diante dos problemas que ameaçam a vida no mundo como conhecemos. A crise climática está nessa lista. As “doenças ambientais e de estilo de vida” também.