Economia da Solidão - BOX1824
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Economia da Solidão

Você já sentiu como se estivesse descontextualizado do restante do mundo? Distante e isolado com as suas próprias escolhas e necessidades, sem ter ninguém ao menos para compartilhar as suas dores? A solidão é um sentimento que causa tristeza, aborrecimento e, em alguns casos, pode chegar a agravar doenças.

Isolamento social devido à pandemia, envelhecimento populacional, dinâmicas familiares e estruturas sociais: vários são os motivos que levam as pessoas a sentir solidão, mas isso está se tornando um problema social muito maior do que imaginávamos. Agora, é uma questão de saúde pública.

Descobertas publicadas no Journal of the American Heart Association revelaram que o isolamento social e a solidão podem aumentar em cerca de 30% o risco de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral (AVC). E constataram que certas populações estão mais expostas aos riscos do isolamento com base em características como raça e etnia, orientação sexual, identidade de gênero e status socioeconômico e social (como é o caso de imigrantes ou indivíduos encarcerados).

É urgente que, em comunidade, aprendamos a lidar com esse que pode ser o grande fator social de risco das próximas décadas. Embora a solidão já tenha chegado na pauta de brainstorms de grandes companhias e campanhas publicitárias, precisamos estar alerta sobre a mercantilização dos laços humanos (Bauman, 2004). A Economia da Solidão surge prometendo uma cura para a carência de intimidade, mas também pode agravar o desengajamento e deixar esfalecer de vez a vida social.

George Monbiot, jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista, uma vez questionou:

O que poderia denunciar mais um sistema do que uma epidemia de doença mental?

Epidemia de solidão

Para Moustakas, psicólogo humanista, a solidão é uma espécie de “separação básica entre homem e seu semelhante, entre homem e sua própria natureza”. Luiz Antonio Alencastro Gasparetto, psicólogo, médium psicopictográfico, escritor e locutor brasileiro, declamou poesia sobre a solidão: 

Solidão é a distância 

que o separa de você mesmo

e não a distância 

que o separa dos outros.

Para driblar a solidão, as pessoas se cercam de outras, criando laços de amizade e cumplicidade; elas se apaixonam, confiam, conversam, viajam e, às vezes, tomam seu próprio espaço, mas sempre com a promessa de que estarão presentes caso alguém precise. Os animais de estimação e os hobbies também são alternativas de cura de quem se sente deslocado e sozinho. Mas o que acontece quando chega uma pandemia de uma doença desconhecida e mortal que força o isolamento a todos?

A solidão se alastrou, criando uma epidemia capaz de afligir até aqueles que antes não sofriam dela. Uma pesquisa internacional realizada pela Ipsos em mais de 28 países dimensionou os impactos da crise na vida das pessoas. No Brasil, metade dos entrevistados declarou sentir solidão.

“No início da quarentena, me recusei a ficar sozinho e fui para a casa dos meus pais. Mas resolvi voltar e encarar meus medos. Acabei aprendendo a ficar só e muito bem acompanhado, devorando filmes e livros e ouvindo música sem parar.”

Rene do Amaral, 51 anos, professor de teatro (entrevista para a Veja)

O estudo também evidencia uma questão social: nos países onde mais se criaram táticas de enfrentamento à pandemia, as pessoas relataram sentir menos solidão, pois sabiam que seriam amparadas. A ausência do poder público também causa sofrimentos psíquico e emocional.

Liberdade ou solidão?

Em 2018, o Reino Unido criou um “Ministério da Solidão” e, mais recentemente, em 2021, o Japão também o fez. No livro A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão, a psicanalista Ana Suy argumenta que a solidão tem sido tratada como uma patologia a ser eliminada, como se não fosse da condição humana nos sentirmos sozinhos.

Na tentativa de trazer dignidade à solidão, a autora explica que a solidão pode dar notícias do desamparo e da angústia, mas, por vezes, também é um estado meditativo e de contentamento consigo mesmo. Sentir-se só não é o mesmo que estar só.

Meme sobre a solidão
Imagem da internet l Autor desconhecido

Ainda assim, a solidão afeta pessoas de diferentes faixas etárias de formas distintas. Os adolescentes, por exemplo, costumam ser tocados por um sentimento de desvinculação. A noção de “intimidade ideal” costuma diferir das relações verdadeiras, e a dor e a desilusão dessa descoberta acaba resultando em sentimentos de solidão. Foi o que mostrou o estudo Solidão em Diferentes Níveis Etários, publicado por Neto, F. & Barros, J. (2001) na revista Estudos Interdisciplinares Sobre o Envelhecimento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Um mercado em ascensão 

A solidão também é um mercado  dos grandes e em constante ascensão. Há anos, a socióloga Arlie Russell Hochschild, que consolidou-se no campo da sociologia das emoções, alertou sobre essa indústria em construção. Em seu livro The Commercialization of Intimate Life: Notes from Home and Work, afirmou que a indústria de acompanhamento nos fará sentir incômodos e haverá críticas, mas a tendência persistirá”. 

No Rent a Local Friend, você pode ganhar dinheiro para passear com turistas. A plataforma conta com mais de 3.000 amigos de aluguel em 325 cidades pelo mundo. Outra empresa de aluguel de amigos permite que você acesse um catálogo com mais de 60.000 pessoas.

No campo de tecnologias emergentes, surgem os social robots atuando na saúde. Um exemplo é a Moxi, uma robô enfermeira que cuida de atividades cotidianas de hospitais, exceto atividades que exigem interação com pacientes.

Com o envelhecimento populacional na Europa, as empresas estão criando cada vez mais propostas para cuidar da população idosa. Em eventos como a Maker Faire, uma feira internacional de inovação que acontece em Roma, multiplicam-se os protótipos de sistemas de inteligência artificial que vão desde pulseiras para idosos a robôs inteligentes com aparência humana. 

Jenny Gallagher era executiva da AARP em Washington, D.C., quando começou a sentir o peso de cuidar de um pai idoso. Gallagher e sua irmã providenciaram cuidados para seu pai, que morava na Costa Oeste, mas sempre faltava algo. Jenny sabia que tinha que haver uma maneira melhor de cuidar do seu pai. Foi quando ela voltou para a Califórnia para criar a Help-Full, uma plataforma de cuidados para idosos.

À primeira vista, a Help-Full é uma plataforma que possibilita que idosos encontrem ajuda para tarefas diárias, desde cozinhar até limpar e passear de carro. Apesar de seu serviço ser um pouco semelhante ao ofertado por empresas como Care.com e Honor, ou mesmo TaskRabbit, a Help-Full está em uma missão maior.

A Help-Full quer derrotar a solidão criando conexões significativas. Os serviços são uma porta de entrada, mas a esperança de Jenny é que os usuários e ajudantes se tornem amigos, usando a tecnologia para lidar com a solidão. (Fonte: StartUp Health)

Se, por um lado, a solidão representa uma insatisfação com a quantidade ou qualidade de relações sociais e afetivas, por outro, o isolamento social amplia esse sentimento, impactando o cotidiano das pessoas, atravessando o campo emocional e atingindo em cheio outras atividades rotineiras. É o caso da Luísa Videira, de 24 anos, uma designer carioca que compartilhou conosco como o isolamento e a solidão impactaram a sua rotina, principalmente o dia a dia no trabalho.

“O contato online acaba não suprindo a minha necessidade. Eu costumava buscar referências no mundo exterior, agora busco muito em telas. É muito cansativo e eu acabo não sabendo o que fazer. Sinto que isso também mudou no trabalho. As pessoas estão mais abertas para falarem da vida pessoal, até mesmo nas reuniões. Antes não era comum, falávamos mais de trabalho. Agora até falamos dos nossos cachorros e isso acaba deixando mais leve. Não sei explicar, mas sinto que estamos buscando mais o outro.”

Para amenizar os efeitos da solidão, Luísa se voltou para as atividades físicas, principalmente ao ar livre, e se esforçou para aumentar a conexão com as pessoas que já mantinha no seu círculo social. “Não fiz muitos amigos novos, mas procurei me conectar com pessoas que eu já conhecia. Foi uma mudança muito drástica, ainda mais para mim, que não sou muito de falar. Mas agora eu estou 1000% mais disponível”, completa a designer.

Na rotina do home office, a solidão quase sempre passa despercebida, principalmente por colegas de trabalho. A desconexão com outras pessoas pode afetar o desempenho de um funcionário, além de causar danos sociais para os indivíduos. Hakan Ozcelik, professor de administração da California State University, argumenta que trabalhadores solitários também podem se tornar excessivamente cautelosos ao serem rejeitados por seus colegas, o que pode torná-los menos acessíveis.

É importante que as empresas cuidem de seus colaboradores. Além de manterem salários adequados, um plano de carreira claro e condições justas de trabalho, também devem observar o comprometimento com a conexão entre pessoas e a qualidade das relações interpessoais.

O sucesso do futuro do trabalho depende do engajamento das empresas com a criação de vínculos significativos. Uma pesquisa realizada pelo LinkedIn em mais de 14 países mostrou que 46% dos profissionais dizem que a amizade é importante para trazer felicidade para o trabalho. Manter relacionamentos pessoais na empresa faz com que os colaboradores se sintam conectados, motivados e produtivos.

“As relações no trabalho estão definindo tanto a dinâmica no escritório, como o desenvolvimento individual. Criar uma cultura que permeie as diferentes gerações, cargos e personalidades é um fator fundamental para construir um ambiente de trabalho bem-sucedido.”

Nicole Williams, consultora de carreiras do LinkedIn

 

Nunca nos sentimos tão desconectados como na Era da Hiperconectividade. É importante que organizações estabeleçam estratégias de cuidado para reconstruirmos esses laços. A necessidade de conexão social é primordial. E, no futuro, a sua ausência poderá custar muito caro.