Espetáculo da Vulnerabilidade - BOX1824
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Espetáculo da Vulnerabilidade
Photo by Verne Ho on Unsplash

Andy Warhol teria previsto o futuro, principalmente no que diz respeito à privacidade quando disse que um dia todos teríamos 15 minutos de fama. As mídias sociais transformaram profunda e permanentemente a forma como trabalhamos, nos relacionamos e criamos.

Na perspectiva da propaganda com apoio da tecnologia, os últimos 10 anos foram revolucionários. Se antes nossos hábitos de consumo eram influenciados pelo mercado e por celebridades, agora pessoas comuns assumem o papel de influenciadores e porta-vozes dos nossos desejos e necessidades.

Essa mudança de comportamento deu origem ao que conhecemos como Creator Economy, uma indústria bilionária em expansão no Brasil. O mercado está sendo impulsionado por criadores de conteúdo que acumulam centenas e milhares de seguidores, mas o que exatamente eles andam criando?

Gui Poulain é designer gráfico de formação, mas estudou gastronomia em Buenos Aires e confeitaria em Paris. Em 2010, montou seu primeiro blog de receitas, o Moldando Afeto e lançou dois livros. Ele também cria conteúdo para seus mais de 85.000 seguidores no Instagram e tornou-se referência em comida afetiva, contando histórias através de receitas.

E quem nunca deu boas risadas com a genialidade de Rapahel Vicente e sua família? Do Complexo da Maré para o mundo, Raphael conquistou mais de 2,5 milhões de seguidores no TikTok criando vídeos e paródias com a família. 

Humor, receitas, beleza, moda, esportes e até mesmo política — diversos são os temas e personagens por trás da Creator Economy que movimentou mais de US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 6,5 bilhões) em 2021.

Tornar-se criador de conteúdo virou oportunidade de negócio e carreira para muita gente. Uma pesquisa realizada pela INFLR, avaliou que 75% dos jovens revelam ter vontade de ser influenciadores. Sendo que 63% dos entrevistados mostraram que aspiram ser uma influência no ambiente digital pelos retornos financeiros. Afinal, quem não gostaria de fazer o que gosta e ganhar bem por isso? 

O portal no espelho: um caminho entre a utopia e a realidade

 

O que você observa pode estar observando você. O Falso Espelho (1928) é uma pintura do artista belga René Magritte. A pupila é substituída por uma espécie de buraco negro, onde o admirador pode ser admirado — criando uma espécie de metáfora surrealista bem complexa sobre a observação: o que você está vendo é o que realmente é?

Falso Espelho de René Magritte l Revista Frontal
Falso Espelho de René Magritte (1898-1967)
The False Mirror, 1928
Oil on canvas, 21 1/4 x 31 7/8″
Purchase, 1936

Falso Espelho também é o nome de um livro escrito por Jia Tolentino. Jia descreve com certo pessimismo e humor a nossa relação com a internet. “Não há mais terras para o capitalismo cultivar, a não ser o eu”, ela acrescenta. E não é assim diariamente quando usamos as redes sociais? No Instagram, corpos e paisagens perfeitas estampam um feed infinito; quanto mais atualizamos, mais ideal ele parece.

Nos últimos meses, um suposto vazamento de planejamento foi assunto nas redes sociais por vários dias. A empresária Bianca Rosa teria um script para os stories com atividades que são cotidianas para a maioria das pessoas. Os internautas se dividiram. Alguns compreenderam a necessidade do planejamento e outros se sentiram decepcionados.

Reprodução do Instagram
Reprodução do Instagram

Mas isso tem mudado. Há alguns anos, o lifestyle perfeito foi perdendo espaço para o que poderia ser autêntico e verdadeiro. Brené Brown é uma professora e pesquisadora da Universidade de Houston que estuda a vulnerabilidade, a vergonha e a empatia há mais de 20 anos. Autora de best sellers e de um dos Ted Talks mais reproduzidos do mundo, Brené se popularizou ao falar sobre a importância de abraçarmos a nossa vulnerabilidade para lidar com as incertezas.

 

“É preciso coragem para ser imperfeito. Aceitar e abraçar as nossas fraquezas e amá-las. E deixar de lado a imagem da pessoa que devia ser, para aceitar a pessoa que realmente sou.”
Brené Brown

Por definição, vulnerabilidade é a qualidade de se tornar vulnerável em uma questão — fraco, indefeso, exposto e destrutível. A vulnerabilidade é o que temos de mais humano. Com tanta concorrência impulsionada pelas redes sociais, diversos atributos humanos começaram a ser considerados na construção de novas marcas para gerar identificação — quanto mais os clientes se identificam com um negócio ou profissional, mais fidelizados eles se tornam.

Pornografia da vulnerabilidade

 

Segundo Guy Debord, teórico marxista francês, filósofo e cineasta, vivemos numa Sociedade do Espetáculo, a qual ele descreve como “inacessível e que não diz nada além do que aparece é bom, o que é bom aparece”. Ou seja, que vivemos uma ilusão; que a vida é o que a mídia disser que ela é.

Na corrida pela humanização na comunicação, a vulnerabilidade virou uma moeda de troca quase sempre indiscutível. A psicoterapeuta Jennifer Musselman acredita que a tendência de compartilhar demais os sentimentos se tornou tão popular porque as pessoas aprenderam a capitalizá-la.

“A ‘pornografia de vulnerabilidade’ nas mídias sociais está ligada ao vício em vulnerabilidade, no qual alguém se envolve no estado de ser exposto emocional ou psicologicamente para a validação de recompensa ou atenção de outros. Plataformas como Instagram e YouTube tornaram a ‘pornografia de vulnerabilidade’ mais comum.”
“Agora é muito mais produzido em massa, acessível e se tornou uma norma cultural.”
Jennifer Musselman, psicoterapeuta organizacional para o Id Vice

 

Para Musselman, as mídias sociais funcionam como uma faca de dois gumes. Embora possam ter um impacto positivo sobre a normalização dos problemas e dificuldades emocionais, os danos colaterais podem ser de longo alcance. É que compartilhar nosso mundo interior com o mundo exterior ficou tão comum que está provocando uma espécie de fadiga da vulnerabilidade.

Durante a pandemia da Covid-19, o isolamento foi um dos fatores que mais interferiu na forma como nos comunicamos. Com acesso limitado e muitas vezes restrito a amigos e familiares, muitas pessoas viram nas arenas sociais uma alternativa para a solidão. 

Mas será que a melhor saída para a conexão humana está na exposição das nossas vulnerabilidades? A primeira alternativa é começar a refletir sobre a moeda de troca das conexões que estamos querendo construir através das redes sociais; algumas pessoas costumam compartilhar o que tem de mais íntimo em troca de uma espécie de validação.

O lugar do cuidado como estratégia

O cuidado deve se tornar o core da estratégia de negócio de empresas preocupadas com seus colaboradores, clientes e o restante da comunidade. Em vez de capitalizarem o tema superficialmente, é importante que as marcas olhem para o lugar da intimidade para além da estética, conectando-se com pessoas e influenciadores que transmitam os valores da marca. 

Em um mundo em colapso, as emoções afloram de situações de vulnerabilidade de extremas necessidades, como saúde, educação, insegurança alimentar e ansiedade econômica. É preciso trazer as pessoas para o centro da estratégia e das tomadas de decisão, acolhendo-as nas estruturas do negócio como parceiras em uma relação mais horizontal, que dê o suporte a esse mercado que vem se banalizando dentro desse contexto.

Tal como a fama pode ser consequência de um trabalho no cinema, na música e nas artes em geral, a influência é consequência de um conjunto de interações. “A influência, além de inspirar, causa uma alteração concreta na forma de pensar e agir. É, basicamente, a habilidade que uma pessoa, marca ou algum meio tem de dar forma à decisão do outro”, Paula Englert, CEO da Box 1824.

Segundo o The Future Laboratory, na última década, as pessoas ficaram obcecadas com como tudo as faz sentir, forçando as marcas a se tornarem fluentes na linguagem das emoções e humores.

Agora esse processo está sendo reinventado através de artifícios psicofísicos. Além de emoções como felicidade, amor e até mesmo tristeza, novas sensações visuais e físicas estão sendo criadas provocando uma espécie de sinestesia. Um exemplo é o festival Otherlands, na Escócia, que recentemente teve sua identidade visual redesenhada pelo Studio Nari. A equipe perguntou às pessoas o que elas sentiam quando estavam em festivais e como poderiam explicar esse sentimento em palavras. Os entrevistados citaram sentimentos como “arrepios” “ou “uma sensação de excitação emocional repentina”. (Fonte: The Future Laboratory)

Otherlands by Studio Nari

No Brasil, a Natura vem investindo no bem-estar e na saúde emocional de seus colaboradores. Desde 2016, a companhia possui um programa de startups com iniciativas para ajudar no combate aos efeitos da pandemia, como a Naomm, uma startup voltada para a saúde emocional que conecta os clientes com uma curadoria de terapeutas de Práticas Integrativas e Complementares (ioga, acupuntura, shantala, reiki, aromaterapia, etc)

“Nós somos uma rede antes do surgimento das redes sociais”, disse Luciano Abrantes, CTO de Inovação Digital da Natura & Co América Latina para a Fast Company Brasil. A Natura atua com consultorias que chegam a quase 2 milhões de pessoas na região. (Fonte: Fast Company Brasil).

Por anos, as marcas correram atrás de comunicar seus valores e seu propósito. Mas agora começam a caminhar em uma nova direção: a da emoção. Emotional branding é o processo de formar uma relação entre um consumidor e um produto ou marca, provocando suas emoções.

Diversas iniciativas nascem diariamente em busca daquilo que mais valorizamos e mais estamos carentes: conexões. Em vez de explorar a dor, tornando nossa vulnerabilidade um verdadeiro espetáculo, podemos colocar no palco aquilo que nos torna únicos, o motivo de sermos lembrados.