Inteligências Verdes - BOX1824
PT EN
Inteligências Verdes

Como seres interdependentes, entendemos a importância do equilíbrio na natureza. As plantas são capazes de gerar oxigênio e garantir alimento e nossa existência na terra. Logo, o papel das plantas é garantir a vida.

Mas, para além desse papel substancial de sustentar a vida na Terra, as plantas oferecem uma infinidade de recursos para pensarmos o futuro de uma forma mais cooperativa e regenerativa — principalmente neste momento, em que estamos ampliando as discussões e iniciativas em torno da biomimética e de uma governança ESG, não só por uma perspectiva verde, mas integrada à natureza.

As inteligências verdes oferecem uma série de tecnologias que podem servir de exemplo para construirmos o futuro da humanidade por meio da medicina, da tecnologia, da comunicação, dos recursos humanos e até mesmo dos sistemas políticos. 

A revolução será das plantas?

Biomimética: um não tão novo jeito de pensar em soluções

A biomimética é um campo da ciência que se dedica a estudar a natureza e as soluções que podem surgir dela para serem aplicadas na comunicação, arquitetura, robótica e muito mais. Há alguns anos, diversas tecnologias têm surgido a partir do hackeamento da natureza por meio do movimento que chamamos de Terra em Rede.

Um exemplo é Sandra Rey, uma designer curiosa e fascinada com as maravilhas da natureza e com os animais que produzem o próprio brilho. Ela se inspirou na bioluminescência para criar luzes “vivas”, que emitem um brilho suave sem o uso da eletricidade.

Sandra Rey, fundadora e CEO da Glowee l Foto de divulgação
Sandra Rey, fundadora e CEO da Glowee l Foto de divulgação

Rey é fundadora e CEO da Glowee, uma empresa que combina biomimética com biologia sintética para produzir luzes bioluminescentes que, um dia, poderão substituir a iluminação elétrica comum, reduzindo as emissões de CO2 que ela gera. As luzes criadas pela Glowee podem assumir qualquer forma e ter diversas aplicações possíveis, como postes de iluminação, adesivos, braceletes etc. 

A biomimética não é uma novidade para muita gente. O reino animal facilitou a criação de inúmeras soluções tecnológicas. As plantas que são comumente ligadas a fontes de recurso para outros seres vivos começam a chamar a atenção para o seu poder de inspirar respostas para o campo da robótica, medicina, moda, comunicação e até da política.

Um exemplo clássico é o carrapicho, que, há mais de 80 anos, inspirou a criação do velcro. George de Mestral ficou curioso com a fixação dos carrapichos nos pelos do seu cachorro e se dedicou a observar esse fenômeno, assim desenvolvendo um tecido capaz de reproduzir essa fixação por meio de centenas de ganchos.

Foto: Breger Dee/Getty Images/Science Source
Foto: Breger Dee/Getty Images/Science Source

Aprender com a natureza pode transformar a forma como vemos o mundo. Estudiosos do Instituto de Biomimética acreditam que estudar esse campo traz alívio para um planeta e pessoas estressadas: “(…) Muitos estão perdendo a esperança de resolver a crise climática e seus muitos efeitos negativos nos ecossistemas em todo o mundo. A biomimética nos dá esperança, porque sabemos que as soluções estão aqui, acessíveis e validadas pelas muitas espécies que contribuem para seus ecossistemas hoje. Ao usar a natureza como nossa mentora, experimentamos os poderosos efeitos de cura que ela tem ao nos conectarmos com o mundo natural — ao mesmo tempo em que encontramos um alívio fortalecedor para resolver esses desafios juntos.”

 

Arquitetura Cooperativa 

As plantas possuem diversos benefícios e desempenham um papel importante no equilíbrio natural. Stefano Mancuso é um botanista, cientista e escritor, que fundou a neurobiologia vegetal e propôs um novo modelo para pensarmos o futuro.

Você já deve ter ouvido falar na fama que as plantas levam de serem ótimas amigas. Mais do que isso, as plantas são um modelo de cooperativismo. Em uma horta, por exemplo, algumas hortaliças companheiras se ajudam por meio de substâncias liberadas no mesmo local de plantio, potencializando o desenvolvimento de suas vizinhas.

A colaboração entre espécies é muito frequente no mundo vegetal, e, provando novamente seus poderosos benefícios, as plantas também colaboram com o reino animal de forma que ambos saiam beneficiados, como no caso da polinização. É essa interação tão inesperada que a diversidade floresce. 

 

“O verdadeiro potencial para a solução dos problemas que nos afligem está nas plantas.”

Stefano Mancuso

 

Em seu livro “A Revolução das Plantas”, Mancuso também evidencia o poder das plantas de serem autônomas energeticamente, ligadas a essa arquitetura cooperativada, dissolvida e sem um centro de comando. Tudo isso torna as plantas seres vivos extremamente resilientes, capazes de resistir a catástrofes enquanto se adaptam com agilidade.

 

A revolução dos robôs — ou das plantas?

As plantas — apesar de não terem cérebro — possuem sistemas complexos de memória e resiliência. Martin Montague escreveu para a BBC Earth que as plantas são as verdadeiras fontes de inovação da natureza.

 

“Por bilhões de anos, a natureza trabalhou incansavelmente para garantir que cada forma de vida na Terra esteja funcionando da melhor maneira possível. Através de incontáveis estágios de evolução, as plantas em particular foram projetadas em um grau tão alto que as mentes criativas modernas as estudam de perto para encontrar soluções para alguns de nossos próprios problemas. Da tinta autolimpante inspirada na folha de lótus às pás de turbinas eólicas modeladas em sementes de bordo, as plantas têm muito a nos ensinar.”

Martin Montague

Em 2015, cientistas anunciaram a criação de uma planta-robô que revolucionou o estudo do solo. Para criar o plantóide (a planta-robô), os cientistas decifraram os movimentos das raízes de vegetais e os transportaram para o mundo da inteligência artificial. Eles, então, adaptaram a morfologia e as habilidades naturais das raízes a um sistema eficiente de perfuração e análise da terra.

Ainda sobre a reportagem para a BBC, o protótipo de planta é capaz de explorar e penetrar a terra com um gasto mínimo de energia — uma economia de até 70% se comparado com o gasto de sistemas tradicionais de perfuração linear — devido à redução do atrito com as barreiras naturais de ambientes irregulares.

Ademais, no campo da robótica, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desenvolveu um “músculo” artificial baseado nas gavinhas da planta do pepino. À medida que a planta cresce, ela lança gavinhas, em forma de espiral, que envolvem tudo o que podem tocar antes de se contraírem para içar a planta em direção à luz solar. 

Músculos artificiais l MIT
Músculos artificiais l MIT

Os pesquisadores copiaram esse comportamento para criar uma fibra ativada pelo calor, que pode puxar até 650 vezes seu próprio peso. A invenção destina-se a uma variedade de usos em robótica, próteses ou aplicações biomédicas. (Fonte MIT News) 

 

A luz que ilumina a caverna é verde: como podemos aprender com as plantas

Para ampliar o conhecimento sobre o design da natureza, o Instituto de Biomimética criou um site com ferramentas online e gratuitas, como o Biomimicry Design Spiral, recomendado para ancorar o processo de design como um todo ou como um guia geral para a integração de insights de biomimética.

Biomimicry Design Spiral, metodologia criada pelo Instituto de Biomimética.
Biomimicry Design Spiral, metodologia criada pelo Instituto de Biomimética.

Do instituto, também nasceu o AskNature.org, uma plataforma gratuita e sem fins lucrativos na qual podemos obter conhecimento sobre design e natureza para a criação de estratégias, negócios e produtos regenerativos.

A plataforma conta com um acervo enorme de recursos educacionais e coleções de conteúdos bem-organizados e com linguagem acessível. Há inspirações de todos os campos do conhecimento, com exemplos diversificados da natureza.

Em 2019, uma empresa chamada change:WATER Labs desenvolveu uma alternativa para o descarte de dejetos humanos chamada iThrone. Trata-se de um banheiro portátil que economiza espaço e reduz os resíduos, eliminando até 95% dos resíduos diários de um local projetado para residências e comunidades que não têm energia ou encanamento. 

A solução foi inspirada no sistema de evapotranspiração, imitando a forma como as plantas puxam umidade do solo e a liberam através das folhas. 

Funcionamento do IThrone
Funcionamento do IThrone l Foto de divulgação

Se olhássemos mais para a natureza com a intenção de nos inspirarmos, encontraríamos soluções mais palatáveis para os desafios que enfrentamos hoje frente a um contexto de policrise global.

A natureza sempre foi o mais importante centro de inovação e tecnologia do mundo, o qual carrega a premissa do cooperativismo, da resiliência, da comunicação e da memória. Sobretudo, as plantas oferecem um universo rico em possibilidades e uma capacidade gigantesca de adaptabilidade. 

Agora, respondendo à pergunta do início, a revolução será das plantas e dos recursos humanos implementados na busca por estratégias com outros espécimes.