Intimidades fabricadas - BOX1824
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Intimidades fabricadas

por Ana Carolina Araújo

 

A pandemia nos trouxe uma pergunta bastante difícil de responder: como ter intimidade sem proximidade? Mesmo sabendo que a pior fase da crise sanitária já passou, não podemos seguir sem notar que as relações não são mais as mesmas e, muito provavelmente, nunca serão.

Para além das relações eróticas e românticas, a expressão intimidade dá conta da nossa capacidade de sermos próximos de alguém. Próximos dos amigos, dos parentes, dos nossos mais velhos, dos nossos filhos. E depois de mais de dois anos nos relacionando com a maioria deles à distância, privados até do sorriso escondido atrás da máscara, não sabemos mais como fazer. Estamos tentando ser próximos de outros jeitos, que nem sempre são os melhores ou mais autênticos.

Essa busca acontecendo em nós reflete num pretenso mercado que tenta dar vazão à nossa imensa sede por intimidade em diferentes formas, da conversa ao toque, da surpresa ao sexo.

A ideia de um mercado da intimidade e dos afetos, onde a vulnerabilidade e a exposição de si, antes tão caras, se tornaram moeda corrente, não é mais um roteiro de filme futurista. Mesmo nossas relações mais íntimas, construídas a base de calor, fluidos e palavras ditas cara a cara  — quando a internet móvel e os smartphones nem existiam — são hoje mediadas por aplicativos de mensagens e chamadas, redes sociais, trocas de memes e até um Pix surpresa.

Como diria uma canção da banda Blitz nos anos 1980: “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem. Mas, realmente, eu preferia que você estivesse…” O verso termina com nua. Sua versão de 2022 poderia terminar com “aqui”. Todos os recursos que prometem nos conectar com as pessoas que queremos bem não atendem nosso verdadeiro desejo em muitos momentos: a presença.

O toque necessário

Nos períodos mais intensos de lockdown, o Twitter estava inundado de mensagens das pessoas falando do quanto sentiam falta do fato de tocar em outras pessoas. Em alguns casos, as pessoas estavam isoladas há apenas um mês, mas diziam que não abraçavam ninguém há três.

A ciência já discutiu essa necessidade de toque entre as pessoas a ponto de ter criado nomes “populares” para as substâncias químicas associadas a ele. Uma das ocasiões de liberação do cortisol, ou hormônio do estresse, é quando tocamos alguém de que não gostamos. Por outro lado, a ocitocina, derramada na corrente sanguínea em momentos afetuosos, é chamada de hormônio do amor ou do abraço.

Segundo o biólogo especializado em primatas Frans de Waal, o contato físico é essencial para nós há milênios, e tem ficado conhecido como “fome de pele”. Não são por acaso existem as orientações de contato pele a pele de bebês em estado de prematuridade extrema, com evidências robustas de redução da mortalidade.

O distanciamento social demandado pela pandemia praticamente extinguiu os abraços entre não íntimos. Em alguns casos, até os apertos de mãos foram aposentados, dando lugar a um aceno sem toque. Isso foi um alívio para muita gente, seja porque apenas não gostam de abraçar, ou por evitar contato físico indesejado.

Segundo Juulia Suvilehto, pesquisadora da Linköping University, na Suécia, o toque em estranhos e conhecidos é parte da nossa evolução social. É com ele que criamos grupos, o que acontece cada vez menos desde que nossas mãos estão frequentemente ocupadas rolando o feed de uma rede social ou trocando mensagens online, mesmo com uma pessoa querida ao nosso lado. Se precisamos de evidências, a ciência nos dá. Uma pesquisa liderada pelo laboratório de neurociência na Universidade de Illinois mostrou que o cérebro ativa centros de recompensa quando as pessoas, mesmo desconhecidas, apertam as mãos.

Em vez de abraçar alguém quando nos faltam as palavras, podemos falar sobre isso. Ou não falar e comprar um HuggieBot 2.0, o robô que abraça os usuários de maneira “natural e agradável”, segundo sua criadora, a pesquisadora Alexis Block. Não importa o quanto tudo isso nos parece estranho. A tecnologia está posta como pilar do mundo em que vivemos e não sairá desse lugar. Ao contrário, ela estará cada vez mais em meio a nós, de formas que ainda nem sabemos.

Sinais de mudança

Para pensar sobre como o desenvolvimento global e a tecnologia seguirão influenciando nossas relações e experiências de intimidade, a Design Futures Initiative realizou um encontro de Futuros Especulativos, um workshop assíncrono com participantes de todo o mundo na plataforma GatherTown. Depois de aberto, o espaço ficou disponível para interações por uma semana para debater encontros e namoros online, proximidade e distância e intimidade sexual. Os participantes deveriam apresentar sinais de mudança e exercitar a criatividade pensando em futuros com a confirmação dos indícios.

Nem todos os sinais vão se concretizar, porque o futuro é sempre incerto. Mas eles nos ajudam a pensar em possibilidades de forma mais ampla e criativa, e ajudam a antecipar consequências não intencionais. Por exemplo, é um sinal de mudança o fato de cada vez mais casais de conhecerem online. E se isso se tornar a norma? Quais serão nossos critérios de atratividade sexual? O que incomodará os questionadores? Do que sentiremos falta? E do que sentiremos vergonha?

Parece muito abstrato? Não é para o pessoal da AIMM, um aplicativo que forma casais (matchmaker service) através da Inteligência Artificial. Os criadores prometem resolver o problema dos perfis mentirosos, exagerados ou impessoais, por câmeras, voz, emoção e reconhecimento facial. O app se comunica com a pessoa pelo menos uma semana antes de apresentá-la a alguém. É a escolha “perfeita” sem esforço. Será?

O serviço Xiaoice, um chatbot social de Inteligência Artificial (IA) da Microsoft, muito popular na China, se vende como possível par romântico. Em vez de responder às falas do usuário, o serviço prevê falas antes que a pessoa conclua a frase, interrompe ocasionalmente, imitando a experiência de uma conversa real. É o que os engenheiros chamam de full duplex: a capacidade de emitir e receber mensagens simultaneamente. O foco do produto não é a prestação de serviço e solução de problemas, mas a criação de um ambiente conversacional.

Acha que as coisas estão passando dos limites? É porque ainda não conhece o safeM8, onde é possível verificar a probabilidade de um casal gerar filhos com doenças hereditárias graves. O algoritmo rastreia 120 mutações patogênicas listadas pelo American College of Obstetricians and Gynecologists. Quando o safem8 detecta que eles não compartilham nenhuma mutação patogênica, eles são considerados “safeM8s”. A plataforma permite ainda o compartilhamento secreto de dados sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e COVID, além de buscar por parceiros com opiniões semelhantes sobre saúde.

Esses não são sinais, mas exemplos concretos de mudança. Os três serviços seguem ampliando suas bases de usuários, embora ainda não sejam o padrão na formação de relacionamentos. Daí, devem surgir conflitos que hoje nos parecem irreais. Um exemplo: e se você se interessar por alguém diferente do que a IA sugeriu, ou que pensa diferente de você sobre como cuidar da própria saúde? E se o conceito de par ideal não tem nada a ver com o que o algoritmo lhe sugere? São questões a se pensar.

Se os negócios prosperarem, a escolha do melhor parceiro estará cada vez mais distante daquela intimidade de que falamos no início desse texto, diretamente ligada à proximidade física e às trocas presenciais.

Mesmo acometidos pela nostalgia em relação ao namoro “de antigamente”, não podemos negar que o papel do toque nas relações interpessoais já mudou.

E o sexo?

Hábitos relacionados aos encontros sexuais já haviam mudado bastante nas décadas anteriores à pandemia. Disque-sexo, Cam4, sexting e Tinder são exemplos de como temos reforjado formas de nos encontrar eroticamente. Apesar de tanta inovação, já faz tempo que os namoros não são “como antigamente”.

Um relatório da publicação Future of Sex — que fornece insights sobre o futuro da sexualidade humana — sugere que em 2025 será possível ter partes do corpo do parceiro produzidas em impressoras 3D equipadas com feedback de toque, tornando bastante realistas as práticas de sexo remoto. Em 2028, mais de um quarto dos jovens terá tido uma experiência assim. Essas experiências serão conjugadas com brinquedos sexuais hápticos (que reproduzem o toque humano virtualmente) que dispensam a presença física dos amantes para um ótimo sexo.

Mas nem tudo precisa ser sobre relacionamentos. A equipe do Future of Sex acredita que os jogos de sexo online multiplayer serão populares já em 2024. Aproveitando a popularização dos ambientes de Metaverso, os usuários poderão criar avatares personalizados que reproduzem suas fantasias eróticas. Hoje, já é possível testar a possibilidade no Red Light Center e no Second Life, que já oferecem complementos como genitais e práticas sexuais.

A indústria de startups eróticas já tem até nome: sextechs. São empresas de base tecnológica que estão reinventando também o modo como nos relacionamos intimamente. Ou genitalmente, a depender do ponto de vista. Segundo o pesquisador canadense Neil McArthur, autor do livro The Ethics of Sex e muitas outras obras sobre o tema, “estamos prestes a testemunhar o crescimento dos digisexuais: pessoas que fazem sexo quase exclusivamente com máquinas”. A inexistência do risco de gravidez ou contaminação por ISTs é uma das justificativas. Parece um episódio da série Black Mirror, mas não é.

O íntimo e o privado

Além do toque e do contato sexual, é quase impossível fugir da discussão sobre como as novas tecnologias afetam nossas noções de intimidade e privacidade. Entendemos que o compartilhamento dos nossos dados de maneira quase incontrolável nos meios digitais permite o devassamento massivo da privacidade. Sendo quase impossível escolher outro caminho, nos comportamos de um modo passivo em relação a isso, pensando apenas sobre quais compartilhamentos nos interessam.

O que nossos dados dizem online faz parte da construção subjetiva dos dias atuais, inclusive nos aplicativos de encontros. Em busca de intimidade — ou só de contato — nos expomos diante de milhões de desconhecidos. É disso que trata o projeto de pesquisa Fabricated Intimacy, onde Marija Bozinovska e Alessandro Gandini exploraram a influência dos aplicativos na formação de relacionamentos íntimos. “Estruturas tecnológicas aparentemente díspares, tanto aplicativos de namoro quanto blockchain, compartilham a confiança como um aspecto comum: a confiança pode ser observada como um pré-requisito para a intimidade”, diz Marija.

A abundância de aplicativos de namoro transformou o cenário romântico em um exercício de deslizar para a esquerda ou para a direita. Toda essa disponibilidade erótica não resolve a falta de um abraço em dias difíceis, de alguém para caminhar lado a lado ou dividir a conta do bar. Isso vale para os brinquedos sexuais. Tantos e tão diversos, não podem olhar nos nossos olhos depois do gozo, ou ter o sexo interrompido por uma memória engraçada. Toda a tecnologia disponível ainda não pode nos tornar menos humanos.

Aplicativos envolventes e robôs supermodernos não darão conta da construção do humano enquanto sujeito, da relação com o outro através da linguagem, da presença física e simbólica que ampara. Ainda que compensem algum tanto de angústia e falta, também constitutivas do sujeito, dificilmente substituirão o calor de um corpo, a verdade de uma fala, os ouvidos disponíveis numa crise. Essas são demandas profundas, e seu suprimento é moeda cada vez mais escassa no mercado dos afetos.

Tudo indica que toda pretensa intimidade fabricada jamais será a intimidade que queremos.