Miopia do privilégio - BOX1824
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Miopia do privilégio

O mundo mudou e não estou falando do surgimento do Pix ou dos tentáculos da globalização. A cada ano sentimos as mudanças na temperatura do ambiente, na elevação do nível do mar e até naquele paraíso tropical que parecia intocado.

Você deve ter acompanhado as notícias sobre os desastres ambientais, como as chuvas excessivas em lugares que não registravam todos aqueles milímetros de água há mais de 30 anos, as ventanias e os quilômetros de florestas incendiadas. Talvez o futuro seja menos sobre carros voadores e mais sobre um desastre climático sem precedentes. O fato é que quem ainda está falando sobre crise climática como algo que acontecerá no futuro é privilegiado.

Segundo um estudo realizado pelo Banco Mundial (2021), até 2050, a crise climática pode forçar 216 milhões de pessoas de seis regiões do mundo a migrarem dentro de seus próprios países. Somente na América Latina, mais de 17 milhões de pessoas devem deixar suas casas nos próximos anos devido a problemas como crise hídrica, baixa produtividade e distribuição de alimentos e elevação do nível do mar.

Sustentabilidade não é mais uma conversa sobre o futuro! Nós não podemos mais ser “sustentados”. Agora o planeta começa a cobrar a conta de anos de exploração. A seca e a elevação do nível do mar já tiraram milhares de pessoas de seus bairros, destruíram laços e acenderam um novo alerta para o mundo: o tempo acabou!

Já parou para pensar como todas essas mudanças estão afetando os seres vivos?

Sabe aquele papo sobre estarmos na mesma tempestade, mas em barcos diferentes? Essa metáfora pode nos ajudar a entender como os seres vivos estão enfrentando e lidarão com os efeitos da crise climática ao redor do mundo.

Do Sul ao Norte do Brasil, os mais vulneráveis já começaram a sentir o impacto das mudanças — seja através das chuvas excessivas ou do desabastecimento de água. Eventos extremos, como as chuvas em Petrópolis e no Sul da Bahia, não são isolados e chamam atenção pelo potencial destrutivo.

Não é como se as autoridades não soubessem. Há anos, diversos pesquisadores e institutos estão alertando sobre as mudanças nas precipitações, principalmente no Sudeste do Brasil. Uma pesquisa publicada no International Journal of Climatology em 2016 já apontava um aumento médio tanto no volume de água quanto na média de dias em que chove no estado de São Paulo, por exemplo. Se por um lado há enchentes, por outro há terríveis secas. Em 2021, o Pantanal enfrentou a pior seca dos últimos 50 anos.

Cavalo morto nas proximidades da Baía de Chacororé, no Pantanal Norte em agosto de 2021.
Cavalo morto nas proximidades da Baía de Chacororé, no Pantanal Norte em agosto de 2021. Em 2021, o Brasil sofreu com a pior seca registrada nos últimos 91 anos. FOTO DE LUCAS NINNO para a National Geographic

As mudanças climáticas também afetam a saúde. No ano passado, pesquisadores publicaram um estudo sobre o aumento de calor na Amazônia e o impacto na população local. A exposição à temperatura extrema pode causar estresse térmico. O estudo aponta que a temperatura média local da região norte irá aumentar consideravelmente, com ondas de calor extremo, sendo normal ter dias em que os termômetros alcancem 46ºC.

Até 2100, mais de 11 milhões de pessoas estarão expostas ao estresse térmico na região. Isso causará uma crise migratória por sobrevivência.

Segundo o mesmo estudo, as condições extremas de calor induzidas pelo desmatamento podem ter efeitos negativos e significativamente duradouros na saúde humana, incluindo:

  • Diminuição da trabalhabilidade;
  • Aumento da mortalidade relacionada ao calor e a doenças cardiovasculares;
  • Desfechos psicológicos;
  • Doenças renais agudas.

Sabendo de tudo isso, já estamos convivendo com a eco-ansiedade ou ansiedade ecológica. Esse sintoma está afetando a maneira como as pessoas comem, trabalham, escolhem planos de saúde e até os relacionamentos. Uma pesquisa realizada pela Insider em 2019 mostrou que quase 38% dos americanos de 18 a 29 anos acreditam que os casais devem considerar as mudanças climáticas ao decidir ter filhos.

Para muito além das catástrofes que acontecem no ambiente físico, as emoções humanas também têm sido transformadas. A solastalgia é um sentimento de luto, tristeza e desconexão que surge quando percebemos que o nosso ambiente natural está sendo violado. Esse sentimento de cansaço e exaustão também afeta a produtividade. Esse é um dos vários sintomas relacionados a eco-ansiedade e está numa categoria de estresse pré-traumático.

Na Austrália, o pesquisador Sri Warsini da James Cook University em Cairns está investigando casos de solastalgia que ocorrem em países em desenvolvimento, como a Indonésia, após desastres naturais, como erupções vulcânicas. Warsini descobriu que a perda de moradias, gado e terras agrícolas e o contínuo perigo de viver em uma área propensa a desastres desafiam o senso de lugar e identidade de uma pessoa e podem levar à depressão. (Fonte: BBC)

Em contrapartida, por efeito e resposta a solastalgia, mais pessoas e organizações estão se mobilizando para frear um cenário ambiental catastrófico — seja através do consumo consciente, de mobilizações sociais ou da educação ambiental. Antes da pandemia, 91% da população brasileira gostaria de ter mais contato com a natureza, segundo uma pesquisa realizada pelo Ibope, e metade não estava satisfeita com as áreas verdes em suas cidades.

Miopia do privilégio

Quem fala de crise climática como algo do “futuro”, com certeza está sofrendo de miopia do privilégio. Já ultrapassamos alguns prazos de colapso e o clima se tornou uma urgência. Diversas comunidades — no presente — já estão sofrendo com os impactos das transformações ambientais provocadas pela ação humana. É o caso de Wedgewood, uma comunidade negra de baixa renda em Pensacola, Flórida, cercada por 13 aterros sanitários, é um dos locais mais ambientalmente racistas e está no topo da lista da Dra. Beverly Wright, co-fundadora do National Black Environmental Justice Network. Segundo a ativista, os moradores de Wedgewood consumiram água potável com níveis de arsênico, amônia e outros produtos químicos tóxicos mais altos do que em comunidades brancas próximas.

Wendy Evil, 52, e seu noivo Kenneth Gibbes, 62, posam na frente de sua casa com os três netos de Evil. (Bryan Tarnowski para The Washington Post)

“Eles respiram sulfeto de hidrogênio, que pode ser prejudicial aos pulmões e ao cérebro. E embora as áreas mais ricas da região estejam protegidas de inundações, Wedgewood está quase indefesa. Quando o furacão Sally atingiu a região em outubro, as casas dos moradores foram rapidamente inundadas.” (Fonte: BBC)

O termo ambientalismo interseccional, cunhado por Leah Thomas, constata uma verdade ainda não encarada por grande parte das vozes brancas da sustentabilidade: não podemos salvar o mundo sem as vozes daqueles que não são ouvidos. No livro The Intersectional Environmentalist, Leah constatou a relação entre ambientalismo, racismo e privilégio. A ativista mostrou como negros e indígenas são impactados de forma desigual por injustiças ambientais.

No Brasil, lideranças indígenas alertam sobre a crise climática há anos e grupos minorizados são os mais atingidos por essas catástrofes provocadas. Então, por que será que os fóruns sobre sustentabilidade e regeneração continuam tão brancos?

Em 2020, o jornalista Rafael Silvério afirmava: “a sustentabilidade é fundamentalmente antirracista”. Segundo o IBGE, mais de 56% da população não é branca. Por que somos minoria nas discussões sobre o assunto? Silvério nos convida para um despertar para a consciência afro-indígena. 

Na última Conferência do Clima (COP26), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) mobilizou a maior delegação de lideranças indígenas brasileiras da história do evento. Mais de 40 representantes dos povos originários estiveram em Glasgow, na Escócia, entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro de 2021 para alertar o mundo sobre a necessidade de demarcar as Terras Indígenas e proteger os povos indígenas para o futuro do planeta.

“Nos colocamos contra falsas soluções baseadas em inovações tecnológicas elaboradas a partir da mesma lógica desenvolvimentista e produtivista que provoca as mudanças climáticas. Criticamos soluções que não reconheçam os povos indígenas e comunidades locais como o ponto central na defesa das florestas, da diminuição do desmatamento e das queimadas, e como essenciais para a garantir que a meta declarada de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius” — Trecho da mensagem da Apib aos líderes mundiais, empresários, gestores públicos e organizações presentes na COP26 em comunicado inédito no Tribunal Penal Internacional (TPI).

Um equilíbrio necessário

Um estudo realizado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), mostrou que essa década é essencial para as mudanças climáticas e ainda é possível controlar o aquecimento global.

Foi em nome do desenvolvimento que chegamos a essa crise. É impossível continuar investindo em soluções para a crise climática baseadas na mesma ótica que nos colocou nessa cilada. A ancestralidade é o átomo que falta quando pensamos em negócios regenerativos e inovação. 

Qual é a primeira imagem que vem na sua cabeça quando falamos de inovação? Uma startup com planta aberta numa área nobre de São Paulo? Uma sala cheia de novas engenhocas? A miopia de privilégio que não nos permite ampliar o cenário de discussões e protagonismo no núcleo de lideranças na sustentabilidade é a mesma que nos impede de buscar um equilíbrio necessário para futuros possíveis e negócios regenerativos.

Olhe para dentro do núcleo de sustentabilidade da sua empresa. Quão diverso ele é? As experiências moldam nossos repertórios pessoais, quanto mais diversidade de experiências, mais vozes poderão ser ouvidas a respeito das decisões a serem tomadas. E quanto mais vozes, maior será a pluralidade das respostas e o poder de ação da sua empresa mediante os desafios climáticos.

O problema de não ter pessoas menorizadas nos grupos decisórios na perspectiva da inovação é que as necessidades e experiências delas não serão consideradas — sendo as mais impactadas pelo resultado do que sai dessas mesas, elas deveriam estar no centro.

Segundo a BBC, a crise climática está reformulando a maneira como a Geração Z trabalha. Com eco-ansiedade, muitos jovens trabalhadores, membros de classe média da Geração Z, estão buscando caminhos profissionais que combinem FLEXIBILIDADE e PROPÓSITO. A demanda está aumentando para esses tipos de empregos relacionados ao clima, tornando crucial que empregadores, consultores de carreira e instituições educacionais reformulem sua programação para que ela seja o mais relevante possível para o clima.

“As mudanças climáticas me dão uma quantidade insana de ansiedade existencial (…) É muito fácil entrar em desespero quando você lê as notícias ou assiste aos documentários do Planeta Terra (…) Combato essa ansiedade por meio do meu trabalho”. Lilian Zhou, 26 anos.

Essa busca profissional também está transformando modelos educacionais. Com a procura por estudos direcionados ao clima, estão surgindo mais especializações relacionadas a impacto socioambiental. Embora essas carreiras sejam muito importantes para o presente e futuro do planeta, ainda há muito a ser desenvolvido. Alguns trabalhos na área possuem baixa remuneração e desequilíbrio na representação racial e de gênero.

Então, todo trabalho deverá ser um trabalho de sustentabilidade? As mudanças climáticas também podem afetar a segurança dos empregos. A ideia de uma vida inteira dedicada a carreira e aposentadoria já parece uma utopia para os mais jovens que estão vendo suas cidades sendo transformadas por fenômenos climáticos induzidos.

Parece clichê, mas o mundo está mudando e o prazo que temos para mudar o rumo das coisas está cada vez mais próximo. O ativista e escritor Ailton Krenak disse uma vez que “a grande diferença que existe entre o pensamento dos indígenas e o pensamento dos brancos é que os brancos acham que o ambiente é ‘recurso natural’, como se fosse um almoxarifado em que você vai e tira as coisas, tira as coisas, tira as coisas. Pro pensamento do indígena, se é que existe algum lugar por onde você pode transitar, é um lugar que você tem que pisar nele suavemente, andar com cuidado nele, porque ele está cheio de outras presenças”.

O futuro não é tendência, é construção. Para evitar catástrofes ainda maiores, precisamos nos curar dessa miopia que nos faz ver o mundo como um grande shopping center.