Pretos em roda é o GPS da moda
Por: Rebeca Dantas

Quando Emicida canta essa frase na música “Libre”, ele traduz, de forma direta e objetiva, como o movimento negro é, atualmente, a maior fonte de influência e referência […]

Quando Emicida canta essa frase na música “Libre”, ele traduz, de forma direta e objetiva, como o movimento negro é, atualmente, a maior fonte de influência e referência para o mercado como um todo. “O GPS da moda” pode ser interpretado como a bússola cultural que influencia nichos e massas, e que está transformando as lógicas de produção e consumo. 

 

É importante ressaltar que, já vivemos os dias em que a moda era associada diretamente ao estilo. O que estava em alta dentro do processo histórico de construção da moda, o que era ditado pelas passarelas, capas de revista e canais de comunicação massiva, representava a forma de expressão estética da época. De fato, os jovens sempre usaram a moda como uma plataforma para se expressar. Mas, os jovens de hoje não são iguais aos de ontem e, atualmente, constroem a sua expressão através de um estilo que combina e conversa com diferentes aspectos da sua vivência. Vale conferir o nosso estudo sobre a geração Z, para compreender como os jovens de hoje mobilizam o consumo da verdade. É por meio dessa lente que eles desenvolvem seus valores, encontram referências e, principalmente, utilizam a moda para dizer quem são, o que querem e o que desejam transformar no mundo. 

 

É nessa costura que, atualmente, a moda é direcionada não somente pela estética, mas também e principalmente, pela ética. A geração Z valoriza o acúmulo de diferentes referências que podem construir o seu estilo. Quanto maior a influência, melhor. Esses jovens se inspiram no que está tangibilizando as transformações que desejam ver acontecer. Dessa forma, consumir se torna um ato de investimento em um mundo mais justo, consciente e igualitário. E quem lidera as pautas de tais transformações hoje é o movimento negro, sendo referência para muito além da moda, e influenciando toda a lógica de consumo do jovem brasileiro.

 

Aquilombamento do consumo

 

Nos últimos anos, a população negra vem conquistando múltiplos espaços de poder. Segundo dados do IBGE, 2019 e Instituto Locomotiva, 2016: 29% da população negra brasileira é dona do seu próprio negócio; 24% dos deputados eleitos em 2018 foram pessoas pretas ou pardas; e 29% das vagas de pós-graduação são preenchidas por pessoas pretas ou pardas. Por outro lado, nem o mercado ou a sociedade conseguem responder de forma efetiva às suas necessidades, visto que: 82% dos empreendedores negros não possuem CNPJ; 57% acreditam que sofrem preconceito quando tentam abrir seu próprio negócio no país; e 72% dos consumidores negros consideram que as pessoas nas propagandas são muito diferentes deles. 

 

Com esse desequilíbrio social e econômico, a população negra se organiza cada vez mais para ofertar as suas próprias demandas. É assim que vemos acontecer o aquilombamento do consumo, uma alternativa político-social que sustenta um novo mercado a partir das suas próprias ofertas e demandas. Significa produzir e consumir, de e para, pessoas negras. Vale a leitura de “O quilombismo”, de Abdias Nascimento, para estudar esse conceito, trazido pelo próprio autor, como uma referência às diversas noções de resistência da população negra ao longo da história. É um ponto que também trazemos na nossa live com Regina Ferreira, empreendedora e CEO na HUTU, uma agência de casting exclusivamente negro.

 

“Eu vim pra cá pra ser modelo, mas fiquei levando vários nãos. Mas com a HUTU, e vendo as minhas campanhas irem para as ruas, fico muito feliz. É como se eu mesma tivesse sido aprovada. Eu só ficaria mais feliz se eu recebesse o contato de alguém do outro lado que fosse uma pessoa negra também. Vamos falar de beleza negra? Vamos. Mas quem é que tá falando? A grande mudança vai acontecer quando as pessoas por trás também forem pessoas negras. Além de realizar o casting, eu preciso explicar para a pessoa do outro lado que ela não vai receber o vídeo da modelo agora porque ela é mãe, está cuidando dos filhos. Pergunto, você pode esperar um pouco? Tenho que entender como dizer que 60 dias para receber um pagamento não faz sentido para quem precisa fazer o corre pra botar comida na mesa hoje. Que nem todo mundo mora no centro da cidade e que precisamos de uber para poder locomover as pessoas. Se quem estiver por trás da campanha não for uma pessoa negra, ela não entende a nossa realidade”.

Regina Ferreira, CEO da HUTU Casting.

 

Em 2020, o IBGE apresentou dados de que 54% da população brasileira é constituída por pessoas negras, e que movimentam em renda própria cerca de R$ 1,4 trilhões ao ano. De uma forma hipotética porém objetiva, se os consumidores negros formassem um país, ele seria o 11° maior país em número de população, com 114,8 milhões de pessoas, e o 17° maior em consumo. Imagine a potência de um mercado que produz e consome para a sua própria comunidade, e que essa comunidade representa a parte majoritária da população.

 

Para além da força e alcance do manifesto, da perspectiva ideológica dos jovens para a construção do seu estilo e do aquilombamento do consumo, o que também impulsiona “pretos em roda como o GPS da moda” é a própria definição de negritude associada ao contexto atual. Todo negro carrega consigo, em menor ou maior grau, alguma camada da história da sua identidade. Mas isso não significa que a sua individualidade seja definida por apenas uma dessas camadas.

 

Pluriversalidade

 

Com quase 1.460 anos de dívida histórica pelo silenciamento e assassinato de uma população – que persiste até hoje -, a identidade negra foi construída pela resistência, resiliência, autoafirmação e potência. Mas com as redes e o fortalecimento dos debates identitários, a negritude brasileira hoje representa a soma das multiplicidades e individualidades. O filósofo sul-africano Magone Ramose traz o conceito de pluriversalidade, explicando que o reconhecimento de todas as perspectivas de saber e de vivência devem ser validadas e reconhecidas. Dessa forma, a cultura negra se torna uma sobreposição de tempos: entre o retorno ao passado ancestral e a construção do afrofuturismo, o importante é reescrever – hoje e agora – novas narrativas essencialmente negras, onde qualquer localidade, território e vivência é levada em conta. Quanto mais olharmos para a cultura negra pela ótica pluriversal, mais nítida fica a relevância dessa mentalidade no contexto complexo e dinâmico que vivemos atualmente. É o que Lucas Montty, de 20 anos, dançarine, modele, coreógrafe do coletivo Afrobapho e mãe da House of Afrobapho, compartilhou conosco na nossa live, contando mais sobre o seu trabalho e vivência

 

“Pra quem é prete, você vive uma luta diária. Quando um preto erra, o povo mete a faca e cai em cima. Quando um branco erra, as pessoas perdoam. E muitas vezes a gente tem medo de falar o que incomoda. Eu convivo com pessoas trans e eu sei o quanto é doloroso as pessoas não respeitarem o seu nome social. Mas a galera respeita o nome artístico de artista, né? Porque você não respeita o nome social de um homem ou de uma mulher trans? No geral, as pessoas não dão oportunidade para o povo prete. Em alguns momentos eu me senti representade por pessoas pretes que abriram caminhos para que eu conseguisse me ver. Mas, antigamente, eu tinha uma autoestima muito baixa, era difícil me olhar e dizer: você é linda. Sempre pensava: será que eu estou bem? Será que eu estou agradando as pessoas? E graças a quem está sempre junto comigo, hoje eu me amo muito mais. Já saí na Elle, na Vogue Italia, já fui fotografade por Torquatto, por Mario Testino que já clicou a Beyoncé, Lady Gaga, Naomi… É surreal falar isso, mas é muito importante falar. E a dança me ajudou muito com meu processo de autoestima. A dança é o movimento, na minha concepção, de você ser quem você é, de você se mostrar, de você entender a sua corpa. Eu penso em fazer outras coisas, mas com a dança eu sei que venho, de alguma forma, trazendo a minha representatividade e amor para as pessoas”.

Lucas Montty, modele, dançarine e coreógrafe do Afrobapho.

 

Quando analisamos a repercussão de “Black is King”, vemos um dos filmes mais aclamados de 2020, onde Beyoncé recria a clássica história de “O Rei Leão”, a partir das suas músicas e com uma narrativa decolonial. Pelos mais diversos elogios e críticas, o filme é um exemplo para vermos como a potência das mensagens do movimento negro são globais, mas que precisam ser tangibilizadas para o universo local. É impossível não enfatizar a conexão da narrativa com o Brasil, sendo o país com o maior número de população negra fora da África. Pelas inúmeras referências acumuladas na construção da história, a produção conversa diretamente com o jovem negro brasileiro, apresentando as mais diversas individualidades possíveis de um povo que, mesmo separado pela diáspora, se une para reinvindicar seu passado, presente e futuro. Um propósito também apresentado por Emicida, em sua série documental “AmarElo” da Netflix, que traz importantes figuras negras que não receberam a devida visibilidade na construção da história do país, mas que são essenciais ao conhecimento da sociedade e do jovem de hoje, para não somente compreenderem, como também visionarem a ascensão da negritude pluriversal.

 

O TikTok se tornou o aplicativo com maior crescimento nos últimos anos, responsável por viralizar conteúdos que bebem diretamente da cultura negra. Certamente você já viu, ou ouviu falar sobre, algum vídeo de dança, coreografia ou alguma música que muita gente andou compartilhando por ali. Mas o que não acontece de forma tão orgânica quanto copiar o conteúdo, é dar crédito e reconhecer seus autores. É o que a criadora de conteúdo Demi Vaughn, conhecida como Demi Mykal, explica quando acusa os usuários de embranquecimento da cultura negra. Foi o que aconteceu com a coreografia de “Renegade” e a jovem Jalaiah Harmon, e acontece com tantos outros. É importante falarmos sobre exemplos como o TikTok, que exemplificam a invisibilização e a apropriação pois, ainda existem muitas barreiras que retardam e dificultam a tangibilização dos direitos e desejos da população negra.

 

Mas a lógica de consumo desenvolvida por esse movimento é regida por valores, condutas e princípios construídos em muitos anos de resistência histórica e que, inevitavelmente, influenciam o funcionamento do mercado como um todo. É a amplitude da identidade pluriversal e a sua população majoritária que lidera o maior potencial econômico e criativo no Brasil. Com o fortalecimento das suas frentes, a cultura negra se torna aspiracional para toda a população – não somente pessoas negras -, e impacta diretamente a construção da individualidade e formação de opinião do jovem brasileiro hoje. Principalmente quando vemos, em todos os nossos estudos recentes, como a geração Z coloca em evidência a influência cultural de artistas, criadores e pensadores negros, atravessando cidades, classes sociais e as mais diversas singularidades. Potencializar essa cultura é uma premissa para qualquer pessoa, marca ou empresa que também deseja ser aspiracional para o brasileiro daqui pra frente. O que Emicida também traduz de forma objetiva quando diz, “é tudo pra ontem”.

 

 


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