Protopia Brasileira - BOX1824
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Protopia Brasileira
Protopia Brasileira l Coleen Rivas

Antes de falarmos do futuro, nós precisamos desfazer alguns mitos. O primeiro é o de que o Brasil é um país pacífico. Na história da nossa sociedade, a violência se faz presente desde a colonização portuguesa. No regime político colonial (1500–1822), a violência se caracterizou pelo extermínio indígena, pelo tráfico e pela escravização dos negros. O Brasil foi construído sob relações de dominação.

Mais tarde vieram os coronéis, durante o processo de industrialização do Brasil, cujo poder pautava-se na violência contra as pessoas do campo; a desigualdade social imperava com a pobreza, a fome e a perseguição política. A violência se perpetuou durante a Era Vargas, a ditadura militar e mesmo após a consolidação da Nova República e da nova constituição, a Constituição de 1988.

Em 2018, o IMS Paulista inaugurou uma exposição chamada “Conflitos: fotografia e violência política no Brasil 1889–1964”, que desfez a imagem pacífica do país. A curadoria da exposição apresentou uma retrospectiva da história e resgatou eventos históricos importantes para a compreensão da atual crise política.

População ataca veículos do jornal O Globo após suicídio de Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, RJ, 1954 | Foto: Agência O Globo
População ataca veículos do jornal O Globo após suicídio de Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, RJ, 1954 | Foto: Agência O Globo

Hoje, a violência do Estado ainda se faz presente. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, apesar da melhora nos índices de violência, ainda vivemos em condições extremas.

Fonte: Anuário de Segurança Pública 2022
Fonte: Anuário de Segurança Pública 2022

A Amazônia se tornou a síntese da violência extrema. A região detém 77% das mortes por conflitos no campo dos últimos dez anos no país. Entre os municípios classificados pelo IBGE como rurais, onde há baixa densidade populacional, a violência letal na Amazônia é 14,6% superior do que a média brasileira.

“O bioma, que é um dos nossos principais ativos geopolíticos e estratégicos, caracteriza-se pela sobreposição de violências e ilegalidades. O desmatamento, o garimpo ilegal, a corrupção, a criminalidade e a intensa presença de milícias e facções do crime organizado, com mais de duas dezenas de organizações regionais e duas grandes organizações nacionais (PCC e Comando Vermelho) que disputam as principais rotas nacionais e transnacionais de narcotráfico, transformaram a Amazônia brasileira em palco de guerras que impactam fortemente os índices de violência letal de toda a região e do país.”

Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Diante de um cenário tão violento, de um passado sangrento e um futuro incerto, é importante voltarmos a esperançar com a democracia, trazendo mais pessoas para o palco das decisões coletivas e defendendo os mecanismos de participação.

Nesse contexto, a Box1824 quer contribuir com as discussões políticas no país, trazendo novos elementos e ressignificando a consciência política.

A juventude política do Brasil

O segundo mito é o de que o jovem brasileiro não se interessa pela política. Em 2014, a Box 1824 realizou um estudo no país inteiro chamado Sonho Brasileiro, cujo objetivo era incluir novas vozes no debate e aproximar o cidadão da política. De lá para o ano de 2022, muita coisa mudou no país, principalmente no que diz respeito à política institucional, mas o que não mudou é que o jovem brasileiro é político em tudo que se propõe a fazer.

Com as manifestações de 2013, uma luz foi acesa. Nossa pesquisa revelou que 70% dos jovens entendiam as manifestações como uma ferramenta importante de transformação no nosso país. Havia uma crença de que a juventude era despolitizada, mas naquele ano a essência da política foi resgatada, tomou corpo e voz. Aquele junho de 2013 deixou mudanças concretas e significativas para o Brasil como a retomada do espaço público, a autoeducação política e a mobilização de mais encontros, protestos e greves.

Independentemente do seu nível de engajamento político, os jovens se sentiam responsáveis por mudanças na sociedade e tinham uma percepção de atuação política que vai além do voto.

“Não preciso esperar agir só quando for algo que tiver um impacto nacional! Não, o impacto começa do quarteirão onde moro, e isso vai contaminando os moradores, bairro, a cidade…”

Fonte: Sonho Brasileiro da Política, 2013 l Realizado pela Box1824
Fonte: Sonho Brasileiro da Política, 2013 l Realizado pela Box1824

A periferia é a vanguarda dos hackers políticos — o berçário dos jovens que estão agindo politicamente para além da participação institucional. Os jovens das favelas e periferias brasileiras são alguns dos que mais presenciam os desafios da sociedade brasileira. Diariamente, vivem a desigualdade, a violência e a carência de infraestrutura.

A politização é inevitável. Eles são empoderados pelas circunstâncias específicas. Esses jovens têm consciência do seu papel político. A consciência política, então, surge de três processos históricos iniciados nas décadas de 80 e 90: o movimento hip hop, os movimentos sociais, ONGs e programas sociais.

“A juventude sempre discutiu e sempre pautou a política da sua forma, o rap, por exemplo, é isso, o Racionais MC’s sempre falou do genocídio da juventude desde a década de 80. O Estado finge que não escuta, e aí faz uma pesquisa e investe milhões para descobrir que no Brasil morre jovem preto, coisa que a periferia já vinha falando nas suas poesias, na sua literatura, no seu rap, nas suas músicas.”

O protagonismo emerge da necessidade. Por viver em territórios onde os problemas socio-estruturais do país estão presentes no seu dia a dia, o jovem não cruza os braços. O Ocupa Alemão é um coletivo focado em questões de direitos humanos que promove encontros e ocupações para discutir questões ligadas à violência e ao direito à cidade. A iniciativa foi criada após a morte de um morador do Complexo do Alemão, seguida por toques de recolher no Borel; os jovens das comunidades se juntaram para criar um movimento de repúdio.

A importância da ficção especulativa brasileira

O terceiro mito é o de que a juventude brasileira não sabe o que quer. Ao longo da história, correntes artísticas e literárias refletiram o espírito do seu tempo, mas também foram essenciais na proposição de futuros. A arte expressa uma experiência espaço-temporal do que é ser jovem no Brasil.

Em discussões atuais sobre o futuro desejável para o Brasil, duas palavras têm aparecido constantemente: utopia e distopia. Se esse futuro imaginativo parece perfeito demais, chamamos de utopia. Esse termo foi cunhado por Sir Thomas More para seu livro Utopia, de 1516, que descreve uma sociedade fictícia no Novo Mundo. A distopia é o contrário: assustadora e indesejável.

Alguns movimentos artísticos contemporâneos, como o Cyberagreste e o Amazofuturismo, oferecem meios para pensarmos outra realidade brasileira. E, por aqui, chamaremos de protopia.

A protopia é uma proposta alternativa entre os conceitos antagônicos de futuro utópico e distópico. Ela surge para quebrar os mitos do passado e alimentar esperanças de forma propositiva e próspera, deixando a imaginação fluir através da ficção especulativa, em direção a projetos de construção de futuros possíveis.

João Queiroz combinou estéticas para criar um projeto que refletisse suas vivências durante as suas pesquisas sobre cyberpunk. Em entrevista ao TAB Uol, Queiroz comentou:

“A Cyberamazon foi minha primeira tentativa de inserir uma personagem próxima da minha etnia num trabalho de ficção científica, algo que sinceramente nunca tinha visto representado. Por eu ter nascido no norte do país e por ser caboclo, senti maior afinidade em trabalhar com os temas lá de minha terrinha e minha ascendência.”

Para a jornalista Lidia Zuin, diante da notícia do aumento das queimadas na Amazônia em 150%, são obras de arte como essas que são capazes de voltar a visão do brasileiro para um futuro mais positivo ou mesmo mais crítico, justamente como uma forma de extrapolar questões do presente a partir da construção de cenários futuros.

Amazofuturismo l Ilustração de João Queiroz
Amazofuturismo l Ilustração de João Queiroz

O Cyberagreste emerge da quarta onda da ficção brasileira, trazendo arquétipos do nordeste e do cangaço. O termo se tornou viral após uma série de ilustrações de Vitor Wiedergrün. Na literatura, podemos citar o conto “Filhos do Metal e da Caatinga”, de Laisa Ribeiro, que se inspirou em obras de José de Alencar, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. (Fonte: TAB Uol)

Em entrevista ao TAB Uol, Laisa compartilhou que acredita na representatividade na arte e na literatura:

“A inteligência artificial, por exemplo, é uma metáfora perfeita para exploração e desigualdade social num futuro em que os robôs vão ser vistos apenas como máquinas de gerar lucro, sem sentimentos e necessidades. Isso não é muito distante de como a população pobre é vista hoje em dia. Um operário metalúrgico brasileiro que entra na fábrica de dia e só sai de noite não está muito distante de ser tratado como um robô. Assim, o cyberpunk proporciona um local para pensar nessas questões de maneira lúdica e transgressora.”

Cyberpunk no Sertão Nordestino l Ilustração de Vitor Wiedergrün
Cyberpunk no Sertão Nordestino l Ilustração de Vitor Wiedergrün

O sonho como matéria-prima do futuro

O quarto mito é o de que deixamos de sonhar. Apesar da crise de confiança institucional, o desejo de fazer mudança por meio da política continua vivo. Agora, mais do que nunca. Esse sonho está acontecendo em projetos como o Arquitetura na Periferia, que capacita mulheres para serem protagonistas na reforma e construção dos próprios lares; no projeto Futuras Cientistas; e no número de candidaturas de pessoas trans batendo um novo recorde. O sonho brasileiro vive no protagonismo da juventude em defesa da floresta.

Espera-se que os próximos anos e projetos de governança sejam mais transparentes, humanos e participativos — o que também deve se refletir nas expectativas das pessoas com outras organizações, desde associações de bairro até as empresas onde trabalham.

É o caso da Herself, negócio de impacto cuja sustentabilidade financeira acompanha o ativismo, gerando transformação social. Além de vender calcinhas e biquínis menstruais, a organização tem como pilar a educação menstrual.

A Herself também é uma empresa com participação política, que, por meio do ativismo e de uma rede poderosa, está fazendo mudanças significativas nas políticas públicas do país. Em uma petição pública em combate à pobreza menstrual, somou mais de 43 mil assinaturas, realizou duas propostas de lei e acumulou mais de 400 horas de educação menstrual online.

A empresa também é responsável por criar a primeira calcinha absorvente para PcDs que menstruam. “Acreditamos que a menstruação não deve ser um limitante para ninguém. Isso começa especialmente na modelagem que temos — que veste do 30 ao 60 — e, agora, com uma opção que atende também pessoas com deficiência”, afirma Raíssa Kist, fundadora e CEO da marca.

Foto de divulgação l Herself
Foto de divulgação l Herself

Com a piora de vários índices do Brasil, deveremos mergulhar em um projeto coletivo de reconstrução nacional. Para as empresas, isso significa revisitarem seus propósitos de negócio e alinharem seus projetos locais com as demandas de seus consumidores, refletindo sobre os impactos da sua atuação no meio onde estão inseridas.

A protopia da juventude brasileira é política na forma de ser, consumir e viver. Por isso, é importante que as organizações públicas e privadas ajudem a construir um espaço político mais democrático e justo.

A luta não acabará com o resultado das eleições de 2022. Para o brasileiro, esse evento marca apenas o (re)começo e a retomada de seus projetos e sonhos em prol de um país mais justo. Há um enorme trabalho para ser feito na saúde, educação, segurança, moradia e no meio ambiente, que demandará a colaboração entre a sociedade civil, o governo e a iniciativa privada.